Certamente muitos conhecem o documento de dissidencia cientifica do Darwinismo, anteriormente referido. No entanto, os cientistas que discordam da posição darwinista ainda são uma minoria, mesmo sendo em maior numero do que os que assinaram o documento. É de salientar que nem todos os que são "dissidentes" do Darwinismo são criacionistas e/ou rejeitam que os factos e fenómenos apoiam a Teoria Sintética da Evolução, descartando apenas a acção de alguns processos aleatórios (embora estando demonstrada a sua influencia nos processos evolutivos) e conjecturando sobre o facto de certas modificações serem melhor explicadas pela acção de um designer inteligente. 2 exemplos deste tipo de dissidencia são os cientistas agnósticos Paul Davies - físico e astrobiólogo, e Michael Denton - médico e bioquímico.

Paul Davies cresceu numa família cristã e criacionista., tendo-se tornado agnóstico. A suas obras mais populares debruçaram-se sobre as condições do universo como o conhecemos e o modo como estes estão adequados á existencia e manutenção de vida - se ocorrer apenas uma modificação desprezável, esta afecta drasticamente a manutenção da nossa existencia. Este também invoca o argumento da complexidade biológica para sustentar que os processos que nos trouxeram desde a formação do universo até á actualidade são melhor esclarecidos como produto de um direccionamento.
Este afirma na sua obra "A Mente de Deus" (1992)
que: "would rather not believe in
supernatural events personally. Although I obviously can't prove that they never happen, I
see no reason to suppose that they do.", ou seja, que não acredita pessoalmente
nem tem provas de que ocorram eventos sobrenaturais. No entanto, este pensa que
para o universo existir há a possibilidade de uma ocorrrencia dessa natureza, então na sua opinião existe um designer - apenas isso. Sendo os argumentos do autor baseados na hipótese do DI, quer pela
complexidade irredutivel, quer pelas condições próprias do universo, esta perspectiva não passa
de hipotética, pois como o próprio afirma, não há evidencias conclusivas.
A sua obra "Deus e a Nova Física" (1983) é considerada
deste modo pelo revisor
Tim Radford do the guardian: "Este não é um livro sobre Deus: é um
livro sobre o que era em 1983
a nova física", sendo as questões abordadas filosóficas (existenciais) relativamente á complexidade e ás condições próprias do universo desvendadas nessa época, tal como acontece relativamente á obra "A Mente de Deus". Ainda assim muitos religiosos criacionistas têm-se baseado nestas obras para invocarem bases cientificas para as suas afirmações, não conseguindo mais do que o esforço de progredir em 100x, mas o resultado de se manterem no mesmo nível de 'problema existencial'.
Os criacionistas costumam rotular Paul Davies de "ex-agnóstico que chegou a deus através da ciencia", quando as suas obras em nada relacionam objectivamente a existencia de deus com os dados cientificos - apenas de uma forma meramente filosófica . Ainda que o autor Paul Davies tenha possivelmente mudado de
opinião (relativamente á citação), tratar-se-ia de uma crença religiosa (desconheço se
Paul Davies acredita em deus actualmente, mas tal não é relevante, uma
vez que design inteligente é diferente de criação divina). No entanto ainda há
pessoas que não conseguem separar a ciencia da religião. O deísta (e cristão)
Francis Collins continua a acreditar em deus - crença pessoal - mas aceita
as leis da natureza e da ciencia com imparcialidade, por exemplo, relativamente
á Teoria Sintética da Evolução - evolucionismo deísta. Não há necessidade de misturar ciencia e religião.
É conhecido que Paul Davies é adepto da teoria da panspermia e não da criação divina para explicar a origem da vida na Terra, o que não contraria o conceito de macroevolução por selecção natural, embora nos trabalhos anteriormente referidos este tenha deixado em aberto a possibilidade da acção de um agente orientador.
O trabalho de Paul Davies influenciou outro cientista (e possivelmente muitos mais), no seu modo de interpretar os factos cientificos: Michael Denton.
Na sua primeira obra contestatária da Teoria Sintética da Evolução á luz da perspectiva Darwinista, "Evolução: uma Teoria em Crise" (1986), este apresenta uma interpretação da complexidade semelhante á de Michael Behe n' "A Caixa Preta de Darwin", dando ainda enfase a outros dados, tais como o registo fóssil e a análise molecular comparativa de proteinas.
As variações na estrutura de proteínas, tais como citocromo
C podem ser analisadas para proporcionar uma árvore filogenética. No entanto, Michael
Denton apontou na mesma obra que a diferença percentual no citocromo C foi comparativamente
medida e as divergências eram aproximadamente uniformes. Por exemplo, a diferença
entre o citocromo C de carpa, rã, tartaruga, galinha, coelho, e cavalo é
entre 13% a 14%.
O autor sugeriu que isso desacreditava a noção de que os
peixes eram ancestrais dos sapos, que eram ancestrais dos répteis, que eram
ancestrais dos pássaros e mamíferos. Se assim fosse, então não seria a
diferença nas estruturas do citocromo C cada vez mais acentuada de carpa para
rã, para réptil, para mamífero? Como poderiam as diferenças na estrutura do
citocromo C, estarem próximas de serem "equidistantes"? O problema do
argumento de Denton foi o facto de todas as espécies modernas serem “primos”. A
carpa não é um ancestral de um sapo; Sapos não são ancestrais de tartarugas; tartarugas
não são ancestrais de coelhos. As variações na estrutura do citocromo c estavam
todos em relação ao ancestral comum destes organismos diferentes e não é
surpreendente que eles mostraram um nível semelhante de divergência. As críticas da comunidade cientifica foram na sua maioria negativas, afirmando um a má interpretação da Teoria da Evolução. Michael Denton foi mesmo apelidado de "anti-evolucionista" e "anti-darwinista" aquando do lançamento da obra supracitada.
Em 1998, Denton aparentemente continuou o "assalto" á Teoria da evolução com a obra "O destino da Natureza". No entanto, nesta obra o bioquímico retrata a sua opinião cientifica e crítica. Denton ainda aceitava o design, mas também a evolução. Ele negou que a aleatoriedade influencia os processos evolutivos e aprópria biologia dos organismos, tendo proposto uma "evolução dirigida".A vida de acordo com Denton não existia até que as condições iniciais do universo se tornaram favoráveis, existindo uma sintonia fina, o que demonstara claramente a influencia do trabalho de Paul Davies.
Denton estudou as evidencias genéticas da Teoria Sintética da Evolução e aceitou-as como válidas, tal como demonstram as citações:
"One of the most surprising discoveries which has arisen from DNA
sequencing has been the remarkable finding that the genomes of all organisms
are clustered very close together in a tiny region of DNA sequence space
forming a tree of related sequences that can all be interconverted via a series
of tiny incremental natural steps".
"So the sharp discontinuities, referred to above, between different organs
and adaptations and different types of organisms, which have been the bedrock
of antievolutionary arguments for the past century, have now greatly diminished
at the DNA level. Organisms which seem very different at a morphological level
can be very close together at the DNA level."
No entanto, este reflete na possibilidade do design:
"Again, as in the two cases cited above, it is hard to believe that
any sort of unguided evolutionary mechanism would have realized such an
unusual adaptive end."
"Just how such a different respiratory system could have evolved gradually
from the standard vertebrate design without some sort of direction is,
again, very difficult to envisage..."
Então, fica a questão: Tratam-se de dissidencias ou de derivações do Darwinismo? A minha resposta é: derivações. Mas fica ao critério.
Referências bibliográficas:
Denton, Michael – ‘Nature’s Destiny: How the Laws of Biology Reveal Purpose in the Universe’ -
Free Press;
First Edition (July 8, 1998)
Birx, H. James - Library
Journal;7/1/1998, Vol. 123 Issue 12, p129 (‘Nature’s Destiny’ review)
Spieth, Philip T. (Associate Professor of Genetics, University
of California, Berkeley) - Zygon, vol.
22, no. 2 (June 1987) (Review: "Evolution — A Theory
in Crisis")
Tim Radford,
‘The Guardian’ Friday 16 March 2012 – “God and the New Physics by Paul Davies –
book review”
Kay, Marc “Comentary
Of Paul Davies and The Mind of God” - CENTech. J., vol. 10, no. 2, 1996