segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Aborto: Sim ou não?


A legalização do aborto induzido é um assunto controverso.

É um procedimento seguro para a mulher, quando realizado por profissionais (1).

Um embrião pode ser considerado humano pelo conteúdo genómico, mas, como exemplo, uma mórula não é certamente um organismo humano – é um aglomerado de células; um embrião com 6 semanas de gestação não é um organismo humano totalmente formado e muito provavelmente não tem nem a capacidade de sentir dor com o processo abortivo. O sofrimento do embrião (ou do feto) tem sido posto em causa e ainda não há consenso sobre a altura em que um embrião pode sentir dor, mas segundo estudos, a idade mínima é entre as 7 e as 8 semanas e a máxima é ás 23 semanas de gestação (2). Há que considerar ainda qual seria a vida de uma criança indesejada – bastante diferente de uma criança desejada, com pais que não teriam propensão para o abandono á nascença, e cujas condições monetárias lhe podem propiciar uma vida com cuidados de saúde e a educação necessária.

Poder-se-ia argumentar que os direitos da mulher acabam onde começam os do embrião. Mas isso está fora de questão quando comparamos um ser consciente com capacidade de sofrimento físico e psicológico com algo que não é consciente e não tem nem a capacidade de sentir dor.  

O que pensar disto tudo: sim, por esta perspectiva (sem considerar outros factores associados á prática do aborto) o aborto deve ser permitido, desde que não provoque sofrimento.

É claro que o caso de uma mulher que seja violada ou que seja demasiado nova para levar a cabo uma gravidez com segurança nem vale a pena discutir (é um grande “Sim”).

 

Referências (*):





(*) Em ambos os casos devem ser consultadas as referências do artigo

Evolução: Vírus e Retrovírus Endógenos (reeditado)


A origem evolutiva dos vírus é difícil de determinar.

As hipóteses de origem dos vírus são:

(i) teriam sido originalmente pedaços de RNA que adquiriram capacidade replicativa e que teriam antecedido a célula;

(ii) ter-se-iam originado da alteração de estruturas celulares normais (material genético) / como subprodutos celulares, que adquiriram a capacidade de entrar e sair de células hospedeiras

(III) teriam sido formados no mesmo período em que se formaram as células.

Na minha opinião estes teriam sido formados não muito depois das primeiras células se terem formado, talvez a partir destas.

No entanto, alguns vírus de RNA aparentam ter uma origem diferente, devido ao facto do seu genoma ser constituído por RNA (apoiado pelas evidências da teoria do RNA World), o que deixa a questão em aberto relativamente a estes.

Todas as famílias de vírus apresentam adaptação ao parasitismo (intra-celular), o que leva a inferir que perderam alguns dos seus componentes (ou que estes deixaram de desempenhar determinadas funções), passando a depender de células hospedeiras. – quer tenham perdido estes componentes aquando da separação da célula quer tenham sido auto-suficientes como organismos diferentes de células.

Os retrovírus endógenos (ERV), encontrados em chimpanzés, humanos e outros animais, são provavelmente de origem viral. A maioria dos HERVs infectaram os humanos há 25 milhões de anos, embora outros sejam mais recentes e alguns tenham infectado os nossos ancestrais já depois da divergência dos chimpanzés (há 6 milhões de anos). Os elementos retrovirais podem ter contribuido para os rearranjos cromossómicos ao longo da linhagem (deleções, duplicações).

Os retrovírus endógenos são também responsáveis por alguma da diversidade fenotípica, por exemplo, em ratos, devido á sua mobilidade.

Os retrovírus são mais uma peça no puzzle da evolução.

 

Referências:

 

"Virologia Básica"





domingo, 30 de dezembro de 2012

Algumas concepções (erradas) sobre espécies e especiação:

Há alguns dias recebi um comentário com uma questão que demonstrava uma concepção errada sobre espécies e especiação. Eu não sou perita no assunto, mas respondi o melhor que consegui.

A pergunta: «Pergunto, vc tem algum artigo científico que mostre alguma pesquisa em que foram observados, através da seleção natural, a mudança de uma espécie para outra? Sempre vejo o pessoal falar que os artigos apenas demonstram microevolução, variação dentro de uma mesma espécie, mas não a macroevolução, mudança de espécie!

Eu não tenho muito conhecimento na área e acho que vc seria alguém imparcial para me falar sobre isso. No aguardo da resposta, obrigado.

Só para esclarecer, mudar para uma espécie diferente, por exemplo um réptil que se transformou em ave, ou um anfíbio e que passou a ser réptil, só como exemplo.»

A resposta:

«"por exemplo um réptil que se transformou em ave, ou um anfíbio e que passou a ser réptil, só como exemplo."

Não. O facto de não conseguirmos observar uma transição de reptil para ave é devido ao facto da evolução ser gradual (problemático para a teoria da evolução seria se conseguíssemos). Também tenho que relembrar que repteis não deram origem a aves, mas sim um ancestral comum. As evidências que existem são baseadas na homologia (sobretudo a que se observa a nível genético). São calculadas (estatísticamente) árvores filogenéticas com base nisso. Mas isto não é apenas mudar para uma espécie diferente, mas sim para uma classe diferente. Partes do processo de especiação têm sido observadas, até mesmo com muita dificuldade nos cruzamentos (fungos, em laboratório). Existem ainda os exemplos (ainda em estudo) das espécies em anel que apontam para especiação parapátrica ou alopátrica com formação de híbridos numa fase anterior do processo de divergência - de um modo simplista (http://allthatmattersmaddy32.blogspot.com/2012/12/especies-em-anel-revisitadas.html).
Para ver um estudo sobre especiação de fungos: http://www.biomedcentral.com/1471-2148/8/35»  

Evolução & Saúde (a teoria da evolução não é inútil!)


Foi referido anteriormente um exemplo em que a Teoria da evolução e a medicina se encontram: o exemplo dos estudos sobre resistência á malária conferida pelo traço falciforme em populações de zonas afectadas. A teoria da evolução é importante para perceber a dinâmica da genética de populações também relativamente a doenças (por isso mesmo tenho uma cadeira de genética que inclui genética de populações).

Mas as aplicações da teoria da evolução á área da saúde não ficam por aqui. Tal como podemos calcular árvores filogenéticas para, por exemplo, espécies diferentes de parasitas, podemos também calculá-las para anticorpos, o que auxilia na compreensão da sua maturação e podemos ainda inferir precursores. Por exemplo: os anticorpos contra o HIV (de reacção cruzada) de vários pacientes foram analisados numa perspectiva de procurar vias comuns de maturação, através do estudo da sua “história evolutiva” (uma vez que a maturação dos anticorpos resulta de um processo semelhante á evolução das espécies).

Ainda há por aí alguém que questione a utilidade da teoria da evolução?
 

Referências:

Focused Evolution of HIV-1 Neutralizing Antibodies Revealed by Structures and Deep Sequencing” - Science 333, 1593 (2011);

 

O código de Stephen C. Meyer (reeditado)

A propósito do design inteligente, há ainda a propaganda de Stephen C. Meyer que diz que as sequências de DNA e aminoácidos funcionam como mensagens escritas e que o código genético funciona como os caracteres numa linguagem escrita. Isso é um absurdo. Tem sido discutido ad nauseam que se tratam apenas de moléculas a reagirem com moléculas e que existem evidências da origem natural do código genético e da vida em si. Mas os criacionistas dão mais crédito a um geólogo do que a vários biólogos e bioquímicos que dizem todos a mesma coisa: a vida é uma ocorrência natural.

Segundo o próprio, quando Meyer descobriu que os cientistas não tinham ainda uma teoria estabelecida sobre a origem da vida, mas sim vários tipos de evidências dispersos, ficou muito admirado. Uau. O Dr. Meyer descobriu a realidade da ciência moderna não aguentou.


Referências:

1.Centre for Intelligent Design Lecture (2011) by Stephen Meyer on 'Signature in the Cell' (https://www.youtube.com/watch?v=NbluTDb1Nfs)

sábado, 29 de dezembro de 2012

Complexidade especificada: impossível de aplicar


Como eu referi anteriormente, a complexidade especificada é um valor probabilístico. Os cálculos probabilísticos neste contexto quando aplicados a estruturas biológicas não têm significado real (demasiadas variáveis). Dembski tentou realizar cálculos com base na pressuposição de que Michael Behe estava certo relativamente ao conceito de complexidade irredutível – de que as estruturas irredutivelmente complexas não podem ter evoluído. O que está errado. E fez perder tempo a toda a gente, porque se o Michael Behe estava errado, o William Dembski também. Se não, os cálculos eram inúteis. E ainda hoje eu estou a perder tempo estupidamente. 

O “conceito” é tão útil como a falsa analogia do Boeing 747 numa sucata (Sir Fred Hoyle). 

 

Referências:

Teoria da evolução aproximadamente neutra


A teoria da evolução "quase neutra" molecular propõe que muitas características do genoma surgem a partir da interacção de três forças evolutivas fracas: mutação, deriva genética e selecção natural no seu limite de eficácia. Tais forças geralmente têm pouco impacto sobre as frequências alélicas dentro de populações de geração para geração, mas pode ter efeitos significativos na evolução a longo prazo. A dinâmica evolutiva de mutações fracamente selecionadas são muito sensíveis ao tamanho da população, e esta teoria foi inicialmente proposto como um ajustamento da teoria neutra para explicar padrões proteicos gerais disponíveis e os dados de variação de DNA.

 
Referências: