domingo, 21 de julho de 2013

O Deísmo e o Evolucionismo Teísta


Um evolucionista teísta (que normalmente é católico ou anglicano e raramente evangélico) tipicamente, apesar de não existir um consenso nos detalhes, acredita que o seu deus criou o universo (antevendo o aparecimento de vida inteligente) e simplesmente deixou-o evoluir por si próprio, inclusivamente a nível da evolução biológica. Esta crença está muito próxima da visão deísta do mundo, na qual deus fez exactamente isso. Eles usam o termo “deus” para designar um ser inteligente capaz de proporcionar um universo assim, mas pelo que eu sei não o veneram e não utilizam esse ser para explicar ocorrências naturais, a existência de mitos de ressurreição ou coincidências quotidianas nem afirmam ter uma relação pessoal com ele, ao contrário dos cristãos evangélicos e, relativamente a alguns pontos, dos católicos e fiéis da Igreja de Inglaterra. Mas quanto aos dois últimos a sua posição é muito próxima do deísmo. Basicamente, para estes, deus só voltou a intervir quando o Homem (Homo sapiens sapiens) já existia. E não são do tipo de atribuir todas as pequenas coincidências quotidianas a deus e de apoiar cada acção e cada opinião na Bíblia. Há até católicos que acreditam na ressurreição espiritual de Jesus e não na sua ressurreição física. Até mesmo alguns cristãos evangélicos, como por exemplo Francis Collins, mantêm uma posição semelhante e outros cientistas que estudaram sobre o mundo natural, sobre a nossa evolução e que aceitaram as evidências que lhes apresentaram, mas não conseguiram largar a religião ou mais tarde precisaram de uma espécie de bengala para lidarem com certas situações de perda e escolheram a opção religiosa que melhor conheciam.

Penso que esta tendência para se afastarem da ideia de um deus pessoal que intervém na natureza, isto é, no mundo físico (teísmo) foi despoletada pelo nível mais elevado de conhecimento científico, pois a ciência veio refutar supostas intervenções divinas, como por exemplo, a arca de Noé, a criação de Adão e Eva e a queda subsequente. É normal que quem é inteligente e tem alguma educação queira que aquilo em que acredita esteja (dentro daquilo que lhe é suportável) de acordo com a ciência, a qual funciona através de um método que é o melhor para se obter conhecimento do mundo em que vivemos. E a Igreja Católica fez isso. E a Igreja de Inglaterra também. Até houve um pedido de desculpa a Darwin, entretanto (que vale o que vale, ou seja, nada). Muito sinceramente, este tipo de ideias não me incomoda. O que me incomoda verdadeiramente é o fundamentalismo, pois só gera ignorância e desonestidade.

Top 5 dos argumentos criacionistas


Os meus 5 argumentos criacionistas preferidos são os seguintes:

- «A datação por carbono 14 não serve para determinar a idade da Terra (ou desta ou daquela rocha)» – talvez por isso sejam usados outros métodos melhores de datação radiométrica para fazer essas datações.

- «A evolução não pode ser testada/provada» – uma mentira descarada. Vejam os fósseis, incluindo os fósseis de transição e leiam sobre genética molecular e genética de populações.

- «O olho humano não pode ter evoluído porque é muito complexo (complexidade irredutível)» – o olho humano é uma de várias etapas da evolução a partir de células foto-sensíveis, que se foram especializando ao longo do tempo. Mais ainda: o olho evoluiu várias vezes ao longo do tempo, o que significa evolução convergente devido a pressões selectivas semelhantes.

- «Porque é que ainda há macacos se nós evoluímos a partir deles» - Nós não evoluímos a partir de macacos. E já agora, porque não isto: “ Porque é que ainda há ingleses se os Americanos vieram de Inglaterra?" Próximo!

- «Evolução é acaso. Isto é muito complexo para ter aparecido por acaso» - Esqueceram-se da selecção natural. Comem muito queijo estes criacionistas.

Aqui fica um vídeo com 10 argumentos frequentemente usados pelos criacionistas (desmantelados):



Os 5 que eu mencionei anteriormente estão todos incluídos no vídeo.

Olho humano vs câmara fotográfica


Descobri na internet* (como é costume) um texto que dizia o seguinte: «Se houvesse uma comparação entre uma câmara fotográfica e a visão humana, quantos megapixels nossa visão teria? Ela teria 341.5 megapixels.» Este número, de acordo com o texto, é bastante superior ao das câmaras fotográficas actuais.  

Mas para chegar a este resultado é preciso fazer umas pequenas contas. E o texto continua: «Manuel Menezes de Oliveira Neto, doutor em Ciência da Computação e professor da UFRGS, explica que, através de movimentos rápidos, o olho faz uma varredura da cena de modo contínuo e envia essas informações ao cérebro, que as combina e compõe as imagens. Para cada grau do campo de visão, o olho faz 77 “ciclos”. Oliveira diz que, segundo a metodologia de um estudo publicado no Journal of Comparative Neurology, são necessários dois pixels para definir um ciclo, totalizando – na complicada matemática da visão – 154 pixels para cada grau do campo de visão.

Assim, por exemplo, se considerarmos a imagem percebida por alguém que observa uma cena com um campo visual de 120 graus tanto na horizontal quanto na vertical, teríamos: 120 x 154 x 120 x 154 = 341.5 megapixels.» Mas o problema é que nós só vemos uma faixa central estreita da imagem com nitidez (enquanto que uma máquina dá imagem nítida em toda a imagem. Houve quem apontasse isto e usasse nos cálculos um valor de 8 graus, o que dava um valor de apenas 1,5 megapixels. Até está bom (para biologia), mesmo assim. Mas ao fim de milhões de anos de selecção natural a filtrar as mutações genéticas mais úteis aos indivíduos, isto não é surpreendente.

Ainda que o resultado fosse algo como 341.5 megapixels isso nada nos diz quanto á questão sobre a evolução do olho, portanto não serviria de nada a nenhum movimento religioso anti-evolução espalhar isso por aí. Seria apenas mais uma curiosidade sobre o corpo humano. E não seria de todo surpreendente, pelo que eu sei sobre a eficácia do processo evolutivo, especialmente da selecção natural, que é até usada no design de certos equipamentos (Richard Dawkins, “O relojoeiro cego”) e na qual foram inspirados os algoritmos genéticos, utilizados em problemas de optimização.


* Nota: o original é este:
Qual a resolução em megapixels do olho humano? (http://super.abril.com.br/blogs/oraculo/qual-a-resolucao-em-megapixels-do-olho-humano/), mas o Mats copiou o texto e o título na íntegra, sem sequer verificar se estava tudo certo (aqui: Qual a resolução em megapixels do olho humano?)

terça-feira, 16 de julho de 2013

Filogenética: Ferramentas Online Básicas (reeditado) (Adenda)

No texto anterior (com o título indicado) afirmei que "Vai aparecer uma evidencia da evolução, que são as semelhanças que vemos no alinhamento que sugerem que os genes/proteínas estão relacionados", mas note-se a palavra sugerem, pois para se considerar que existe evidência (num sentido mais estrito) que apoie uma hipótese é necessário realizar testes que permitam distinguir entre 2 hipóteses, por exemplo, relativamente à ancestralidade comum: acaso e ancestralidade comum. O Douglas Theobald (1) deu exemplos de testes que se podiam fazer relativamente a essas 2 hipóteses quando testou a hipótese da ancestralidade comum universal. 

P.S. Se alguém que perceba do assunto quiser corrigir alguma coisa está à vontade (eu estou no segundo ano da faculdade e não sei tudo). Mas se algum criacionista que não perceba nada do assunto resolver dar palpites só porque precisa de embirrar com alguma coisa nem vale a pena comentar. 

Ref.:

http://theobald.brandeis.edu/pdfs/Theobald_2010_Nature_all.pdf 

As mentiras dos criacionistas

As mentiras dos criacionistas no site “Evolution News and Views” são algo de inacreditável - tiveram o descaramento de afirmar o seguinte: "The real science stopper is Darwinism. It focused only on protein-coding genes and dismissed everything else as “transcriptional noise” or “junk DNA”", entre outras mentiras. São desprezíveis. Não há nenhum cientista sério que despreze a parte não codificante do genoma e diga que é tudo lixo. Ainda bem que existem pessoas atentas a estas mentiras descaradas e que têm a paciência de as desfazer, como aconteceu nos comentários ao texto “How the IDiots view genome research” no “Sandwalk” (sigam a hiperligação).

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Rearranjo de cromossomas e especiação


As espécies que observamos actualmente (incluindo os humanos) são o resultado de eventos sucessivos de especiação ao longo do tempo, que é um fenómeno que tem sido investigado desde o tempo de Darwin, que apontou como um dos mecanismos responsáveis a selecção natural. Mas o estudo dos mecanismos que levam á especiação continua.

Um estudo intitulado “Recombination Rates and Genomic Shuffling in Human and Chimpanzee – A New Twist in the Chromosomal Speciation Theory” (Molecular Biology and Evolution) tem como propósito avaliar uma hipótese proposta em vários outros estudos, na qual rearranjos nos cromossomas (exemplos de rearranjos são inversões e translocações) reduzem o fluxo genético e contribuir potencialmente para a especiação pela supressão da recombinação. De acordo com o modelo de “supressão da recombinação” os rearranjos teriam um efeito reduzido na aptidão (“fitness” – que se refere á capacidade de sobreviver para se reproduzir com sucesso), mas iriam suprimir a recombinação, reduzindo o fluxo genético, o que levaria á acumulação de incompatibilidades. Novos polimorfismos podem assim acumular-se num grupo de indivíduos e não noutro. Com o tempo isso pode levar á especiação.

No artigo referente a este estudo, os autores afirmaram que os dados fornecem evidências de taxas de recombinação baixas em regiões do genoma que sofreram rearranjos durante a evolução do humano e do chimpanzé, em contraste com as restantes regiões que apresentavam taxas mais elevadas.

Este estudo foi uma óptima contribuição para a compreensão da origem de novas espécies de primatas.


Ref.:

- Farré M, Micheletti D, Ruiz-Herrera A (2012) Recombination Rates and Genomic Shuffling in Human and Chimpanzee – A New Twist in the Chromosomal Speciation Theory. Mol Biol Evol 30(4):853-864 (disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3603309/)