sábado, 10 de agosto de 2013

Acreditar sem evidências

Não gosto muito do termo acreditar para indicar que se aceita algo com base em evidências. É que acreditar pode ser sinónimo de ter fé, o que normalmente é conotado com a religião, isto é, com aquilo em que se acredita sem se ter evidências. Eu prefiro o termo "aceitar" ou se estamos num diálogo corriqueiro, prefiro o dizer "penso que". Normalmente o termo "acreditar" é usado em expressões como "acreditar em deus", "acreditar na ressurreição de Jesus", "Acreditar em fantasmas" e coisas do género - tudo isto sem evidências. 
Todas as crenças que anteriormente exemplifiquei são injustificadas e vão contra todo o trabalho em ciência que já foi feito até hoje. Mas é claro que para os religiosos não há problema nenhum. Se for preciso ignoram a ciência só para continuarem a ser cristãos ou muçulmanos, etc. 
Mas o maior problema da religião é que se parte do pressuposto de que aquilo que está na Bíblia está correcto, que a bíblia é a palavra de deus e que esse deus realmente existe - isso é completamente anti-científico, pois é uma crença à priori naquilo que se devia demonstrar através de evidências. É claro que alguns mais inteligentes apercebem-se de certos becos sem saída, como o relato de génesis, por exemplo, mas eles continuam a dizer que está correcto que deus criou o universo (pelo menos alguma coisa tem que estar bem, certo?), mas que o resto é apenas parte de uma metáfora para indicar isso mesmo. Mas mesmo assim continuam a acreditar que deus (o seu deus particular, que voltou à terra e foi o próprio filho durante 33 anos, entre outras peripécias) criou o universo sem qualquer evidência. Nada. Tem que estar certo porque "está" na Bíblia, porque a Bíblia é a palavra de deus. E continuam a andar em  círculos, pela salvação das alminhas, para que não ardam no fogo do inferno. Irracional. Ridículo. Risível. Como em tudo no cristianismo, estes três atributos não ficam de fora.  
Mas como diria o Richard Dawkins, a religião é um efeito colateral de uma coisa selectivamente muito vantajosa: a obediência à autoridade. É irracional, ridícula, anti-científica, mas está associada a um comportamento extremamente vantajoso. Isto talvez explique como esta se encontra tão generalizada na população humana. Mas não deixa de ser ridícula e irracional, assim como as alergias não deixam de incomodar só por estarem associadas a vantagens evolutivas. Já não sei é qual destas duas coisas me incomoda mais. 

Evolução de proteínas III: o papel da duplicação e da evolução neutra

Ultimamente têm sido conduzidos trabalhos de investigação sobre a origem da complexidade e função proteica.
Em 2011 foi publicado um artigo na revista Nature sobre a evolução das estruturas da ATPase de células de fungos. Um dos líderes da investigação é Joseph W. Thornton, da Universidade de Oregon (autor de um óptimo artigo sobre o qual já falei aqui no blog, também sobre evolução de proteínas – Evolução de proteínas II). Nos fungos (Agaricus bisporus), as células têm que mover os átomos de um lugar para outro. Uma das maneiras de fazer isso é com bombas moleculares, os complexos ATPase vacuolar. Um anel de proteínas lança átomos de um lado de uma membrana no fungo para o outro. Este anel é claramente uma estrutura complexa. Ele contém seis moléculas de proteína: Quatro das moléculas consistem da proteína Vma3, quinto é a Vma11 e o sexto a Vma16. Todos os três tipos de proteínas são essenciais para o anel de girar.
Para saber como essa estrutura complexa evoluiu, os cientistas compararam as proteínas relacionadas noutros organismos, como animais (fungos e animais compartilham um ancestral comum que viveu há cerca de um bilião de anos).
Nos animais, os complexos de ATPase vacuolar também têm anéis feitos de seis proteínas. Mas esses anéis são diferentes dos anéis dos animais: em vez de ter os três tipos de proteínas nos seus anéis, têm apenas duas. Cada anel da proteína animal é constituído por cinco cópias de Vma3 e uma de Vma16. Os fungos são mais complexos do que os animais, pelo menos quando se trata de seus complexos ATPase vacuolar.
Os investigadores olharam atentamente para os genes codificantes responsáveis pelas proteínas do anel. A Vma11, a proteína exclusiva dos fungos, acaba por ser um parente próximo da Vma3 em animais e fungos. Os genes para Vma3 e Vma11 devem, portanto, compartilhar um ancestral comum. A equipe de Thornton concluiu que no início da evolução dos fungos, um gene ancestral das proteínas do anel foi acidentalmente duplicado. Dessas duas cópias, uma evoluiu para Vma3 e outra para Vma11.
Ao comparar as diferenças entre os genes para Vma3 e Vma11, os cientistas reconstituíram o gene ancestral do qual ambas as proteínas (Vma3 e Vma11) evoluíram. Depois usaram a sequência de DNA em causa para criar uma proteína, reconstituindo uma proteína de 800 milhões de anos de idade. Thornton e a sua equipa chamaram a esta proteína Anc.3-11. Então, os cientistas quiseram saber como o anel de proteína funcionava com esta proteína. Para descobrir, inseriram o gene para a Anc.3-11 no DNA duma levedura. Eles também “desligaram” os seus genes descendentes (Vma3 e Vma11), o que numa situação normal seria letal. No entanto foi descoberto que as leveduras poderiam sobreviver com Anc.3-11 a substituí-los, com anéis totalmente funcionais.
Então: os fungos começaram com anéis feitos de apenas duas proteínas - as mesmas encontradas nos animais (como nós, humanos). As proteínas eram versáteis, capazes de se ligar a si ou aos seus parceiros, juntando-se a proteínas ou à sua direita ou à sua esquerda. Mais tarde, o gene para a Anc.3-11 foi duplicado, originando-se a Vma3 e a Vma11. Estas novas proteínas continuaram a fazer o que as antigas faziam. Mas ao longo de milhões de gerações de fungos, começaram a sofrer mutações. Algumas dessas mutações reduziram a sua versatilidade. A Vma11, perdeu a capacidade de se ligar a Vma3 do seu lado dos ponteiros do relógio. A Vma3 perdeu a capacidade de se ligar à Vma16 do seu lado dos ponteiros do relógio. Estas mutações não mataram o fungo, porque as proteínas ainda poderiam unir num anel, sendo consideradas mutações neutras. Mas agora o anel só se pode formar com êxito, apenas se todas as três proteínas estiverem presentes.
Resumindo: com o tempo, evoluíram mais partes e, em seguida, as partes adicionais começaram a divergir uma da outra. Os fungos acabaram com uma estrutura mais complexa do que a dos seus antepassados.

Outro exemplo de evolução neutra construtiva é a edição de RNA. Um cenário proposto é o seguinte: uma enzima sofre mutações, podendo mudar certos nucleótidos do RNA. Esta enzima não prejudica a célula, nem a ajuda, pelo menos não no início, persistindo. Mais tarde ocorre uma mutação prejudicial num gene. Felizmente, a célula já tem a enzima de ligação ao RNA, o que pode compensar essa mutação editando o RNA. Ele protege a célula dos danos da mutação, permitindo a esta passar para a próxima geração e disseminar-se pela população. A evolução desta enzima de edição de RNA e a mutação que se fixou nada teve a ver com a selecção natural e uma vez que se apoderou da população, já não se puderam livrar dela.

Referências:


- http://pages.uoregon.edu/joet/PDF/finnigan-thornton_nature2012.pdf

Einstein não era religioso


Albert Einstein era panteísta, ou talvez pandeísta (*).
Não acreditava num deus pessoal, como o deus judaico-cristão. No entanto, foi criado o mito de que Einstein era religioso, sobretudo devido a esta sua frase: "Deus não joga dados com o Universo".
Uma carta escrita por Albert Einstein em 1954, foi vendida a um comprador desconhecido on-line por 3,000,100.00 dólares americanos. Nesta, a chamada "Carta de Deus" (“The God Letter”), Einstein abordou temas como a religião, o tribalismo – e a sua descrença no deus bíblico.
Este documento histórico é particularmente importante porque vem esclarecer o significado da frase supra-citada. Os historiadores suspeitam que ele usou o termo como uma espécie de metáfora para coisas como as leis da física, ou mesmo a totalidade do próprio cosmos.
O excerto que fala sobre a sua posição relativamente á religião (especialmente ao judaísmo) é o seguinte:












* Nota: Pandeismo é uma doutrina teológica, que combina aspectos do panteísmo e deísmo: o criador do universo, na verdade, tornou-se o universo, e por isso deixou de existir como uma entidade separada e consciente.

Site consultado:



P.S.: Lembrem-se disto quando resolverem vir com a conversa do “Cientista X era religioso”.  

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Alergias evolutivas

As alergias incomodam muita gente. Incluindo eu própria. Incomodam até mais do que o criacionismo. No entanto investigadores têm tentado descobrir uma possível vantagem evolutiva para as reacções alérgicas. Relembrando as minhas aulas de imunologia, uma hipótese foi proposta com base no envolvimento das IgE (sistema imunitário adaptativo) tanto na defesa contra parasitas intestinais, como na reacção alérgica, a qual afirma que as IgE evoluíram para nos proteger dos parasitas e as alergias eram um efeito colateral dessa evolução. Mas há mais: num um artigo publicado em Abril de 2012 na revista Nature, Medzhitov e os seus colegas argumentam que as alergias surgiram para nos proteger de substâncias potencialmente tóxicas no meio ambiente ou em alimentos. Por outras palavras, não são apenas uma desorientação do sistema imune. O investigador explica: "Como é que alguém se defende contra algo que inala que não quer? Faz muco. Faz o nariz escorrer, espirra, tosse. Ou se é na pele, induz a sensação de comichão, para ser removido, arranhando". Da mesma forma, se ingerir algo prejudicial, o corpo pode reagir com vómitos.
Entre as evidências Medzhitov cita um estudo de 2006 publicado na revista Science, que relatou que as células-chave envolvidas em respostas alérgicas degradam e desintoxicam o veneno de cobra e de abelha. E um estudo de 2010 publicadono Journal of Clinical Investigation sugere que reacções alérgicas às secreções da carraça evitam as pragas de fixação e alimentação.
Esta pode coexistir sem problemas com a ressuscitada hipótese higiénica, que sugere que as pessoas que se deparam com uma série de bactérias e vírus no início da vida investem mais recursos do sistema imunológico em respostas do tipo I.
Para quem é alérgico, isto são boas notícias: nem tudo é mau nas alergias e não somos assim tão disfuncionais.  
Mas como evoluíram as moléculas do sistema imunitário adaptativo? O sistema imunitário adaptativo, em mamíferos, que está centrado nos linfócitos receptores de antigénios que são gerados por recombinação somática, surgiu há aproximadamente
500 milhões de anos em peixes da família Opistognathidae. Acredita-se que tenham contribuído para a génese do sistema imunitário adaptativo: o surgimento do gene (transposão) de activação da recombinação (RAG), e duas fases de duplicação do genoma inteiro, numa época próxima da altura da origem dos vertebrados. Foi recentemente descoberto que algo semelhante, incluindo duas linhagens de células linfóides, surgiu em peixes sem mandíbula por evolução convergente.
Em termos de pressões selectivas, uma hipótese que enfatiza a importância do intestino sugere que, com o advento das maxilas, material digerido poderia ferir o intestino e, portanto, resultar em infecções maciças. O sistema imunitário surgiu então como sistema de defesa e tornou-se mais importante e mais sofisticado, com o surgimento de predadores vertebrados maiores com mandíbula que tinham poucos descendentes.

Refs.:




Evolução? Os fósseis dizem sim!

Existem várias linhas de evidência da embriologia, da genética molecular – por exemplo, os pseudogenes (com as mesmas mutações) e retrovírus endógenos; tudo o que é vestigial e mal adaptado a uma mudança recente, tal como cobras com membros atrofiados e cavalos com dedos de lado atrofiados (vestigiais), o facto de nós sermos mal adaptados ao bipedalismo (as dores nas costas, por exemplo) – tudo isto (e ainda mais) faz com que a evolução seja a hipótese que mais se adequa ao que é observado e, por conseguinte, praticamente um consenso entre os cientistas. Há ainda uma linha de evidências muito importante, que é o registo fóssil. 
Pois é, os criacionistas ficam a perder outra vez. Os fosseis são uma chatice para os cristãos, não são? Mas vamos ao que interessa: a teoria da evolução faz bastantes previsões e uma delas, relativamente aos fósseis, é que estes deviam aparecer numa progressão temporal, numa hierarquia de linhagens e que seria possível relacionar animais modernos a outros mais antigos e diferentes. Existem 2 modelos diferentes para o aparecimento de novas espécies, mas que não são mutuamente exclusivos e ambos prevêem que, pelo menos algumas (poucas) transições de espécie para espécie devem aparecer. Estes modelos são o equilíbrio pontuado e o gradualismo.
Quanto ás previsões do criacionismo, os criacionistas normalmente não afirmam quaisquer previsões (pode haver alguma excepção). No entanto, cientistas já indicaram algumas e é basicamente o contrário do que prevê a teoria da evolução, sendo de salientar a previsão de que não deve haver fósseis de transição entre tipos básicos criados por deus, pois isso é muito subjectivo: tipo básico varia entre espécie e classe. Mas podemos dar o benefício da dúvida e considerar classe ou ordem (os mais elevados). Se considerarmos a classe vem logo á memória um dos exemplos mais conhecidos, que é o género Archaeopteryx que demonstra a transição de répteis para aves – um dos muitos que demonstram essa transição.
É claro que as previsões da teoria da evolução se verificaram e as do criacionismo falharam. Vamos ver como:


http://www.talkorigins.org/faqs/faq-transitional.html (vai ter a um índice do “Talkorigins” da secção de fósseis de transição; não me apeteceu estar a enumerar fósseis de transição, e visto que já há uma enorme lista feita, deixo apenas o endereço). 

P.S. - Para os criacionistas que aqui aparecerem: não vale apena choramingar no molhado.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Criacionistas psicopatas no blog “Darwinismo”

Hoje vi uma coisa num blog criacionista (“Darwinismo”) na caixa de comentários, que me deixou espantada: o criacionista Azetech deixou o seguinte comentário:

«Carlos Natário
– 3 Referências bibliográficas são meta-referências não isentas , isto é, apontam para paginas online de fundamentalistas Bíblicos em que este Blog se apoia e suporta. (…) Proponho-me focar exclusivamente no que vem escrito nas duas únicas referências jornalísticas (Beatrice Daily Sun e The Tribune) devido à sua maior capacidade de isenção e não esquecendo obviamente neste texto(…)
Devo presumir que, segundo a tua cosmovisão, fontes pelo qual apoiam o darwinismo e evolucionismo são automaticamente considerados Isentos e científicos, correto?
Porém, em contrapartida, ainda segundo tua cosmovisão, fontes pelo qual questionam o darwinismo e evolucionismo, são “meta-referências” não isentas, propagada por fundamentalistas fanáticos, terroristas, inimigos da razão, da ciência e da humanidade, pertencentes a maléfica religião cristã, pelo qual precisam se extirpadas juntamente com os religiosos (queimando Bíblias, destruindo templos e fuzilando em um paredão quem não negar a Cristo)
Não seria isso fanatismo de tua parte somado com um desejo ditador de imputar suas crenças forçadamente a todos?
Não seria isso fruto de sua revolta intrínseca e ódio contra Deus, Cristo e quem o servem? (sic)»


A partir do pequeno parágrafo escrito pelo Carlos Natário, o Azetech inventou uma série de coisas que não se podiam depreender pelo comentário do Carlos.
“(…) pertencentes a maléfica religião cristã, pelo qual precisam se extirpadas juntamente com os religiosos (queimando Bíblias, destruindo templos e fuzilando em um paredão quem não negar a Cristo) (sic)”? De onde é que este psicopata foi tirar isto? Acho que já descobri a doença mental do Azetech: paranóia. Ele tem a mania da perseguição relativamente a ele próprio e aos cristãos de um modo geral. Este indivíduo devia pensar em tratar-se. Acho que neste momento é uma pessoa com a qual é quase impossível a convivência e isso deve ser difícil para ele também. Procurar um especialista iria ajudar, mas não me parece que ele se aperceba da sua condição de doente mental. É triste, muito triste. Mas por outro lado ver o psicopata a dizer disparates dá vontade de rir. Estou entre a condescendência e a vontade de rir. Não sei o que hei-de fazer.

Evolução? Os genes dizem sim! (parte II)

Tal como anteriormente foi exemplificado através das evidências da evolução de baleias, podemos exemplificar mais evidências da evolução proveniente da genética molecular da nossa própria espécie (não somos nenhuma excepção).
O sentido do olfacto é possibilitado por um conjunto de proteínas, os receptores olfactivos, encontrada na superfície de células que revestem a cavidade nasal. Compostos que andam pelo ar ligam-se a estes receptores, enviando assim os sinais para o cérebro, que interpreta o padrão de ligação de um determinado odor.
Consideremos 15 pseudogenes presentes nos seres humanos, mas não em chimpanzés. De acordo com a hipótese da ancestralidade comum, estes 15 pseudogenes têm surgido desde que os humanos e os chimpanzés tiveram um ancestral comum (há cerca de 6 milhões de anos atrás). Se isso for assim, poderiamos prever que nenhum dos 15 pseudogenes estará presente em primatas teriam divergido ainda mais cedo. Isto é exactamente o que encontramos ao examinar os genomas do gorila e do orangotango.
Seis pseudogenes com mutações de inactivação idênticas são encontrados em todas as quatro espécies. Humanos e chimpanzés compartilham doze pseudogenes idênticos em comum, mas os seres humanos e os gorilas compartilham apenas nove. Estes nove, como previsto, são um subconjunto dos 12 pseudogenes partilhados por humanos e chimpanzés. É de lembrar que muitos, muitos mais foram analisados e dão resultados paralelos.
Os dados de pseudogenes também pode ser estendido para muito mais espécies distantemente relacionadas. Todos os mamíferos, por exemplo, seriam os descendentes evolutivos de antepassados que punham ovos. A previsão da evolução, de que os mamíferos são descendentes desses antepassados, ​​já foi testada, procurando os restos de um gene inactivado, responsável pela produção de gema de ovo no genoma humano. Este gene, o chamado gene da vitelogenina, é utilizado como um componente de gema de ovo numa ampla gama de espécies que põem ovos. Um grupo de investigadores levantou a seguinte questão: seria possível encontrar os restos mortais do gene da vitelogenina no genoma humano? E foi possível encontrar esses vestígios no nosso genoma.
Genes intimamente ligados, podem ficar juntos por muito, muito tempo. Usando essa noção, os investigadores: localizaram o gene da vitelogenina (funcional) no genoma de galinha, verificaram qual era o gene "do lado" do gene da vitelogenina na galinha, confirmaram que este gene vizinho estava presente no genoma humano e no mesmo local em relação ao gene vizinho no genoma humano descobriram os restos mutantes do gene da vitelogenina no genoma humano, precisamente neste local.
A hipótese da ancestralidade comum é uma boa explicação para o padrão de pseudogenes que observamos, bem como para o todo do padrão de semelhanças e diferenças que observamos.

Referências:

- Brawand, D., Wali, W. and Kaessmann H. 2006. Loss of Egg Yolk Genes in Mammals and the Origin of Lactation and Placentation. PLoS Biology 6: 0507-0517. (http://www.plosbiology.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pbio.0060063)

- Gilad, YG., Man, O., Paabo, S., and Lancet, D. 2003. Human specific loss of olfactory receptor genes. Proc. Natl. Acad. Sci. 100: 3324-3327. (http://www.pnas.org/content/100/6/3324.long)


- Zhang, ZD, Cayting, P., Weinstock, G. and Gerstein, M. 2008. Analysis of of nuclear receptor pseudogenes in vertebrates: how the silent tell their stories. Mol. Biol. Evol. 25: 131-143. (http://mbe.oxfordjournals.org/content/25/1/131.full)

P.S. Este texto foi escrito ao som desta música:



E quando passava esta parte: «I feel nothing when you cry/
I hear nothing, see no need to reply/ I can smile now and turn away», eu só conseguia pensar que era assim que eu me sentia em relação aos criacionistas, especialmente o primeiro verso: «I feel nothing when you cry». Agora chorem de vergonha (ou de raiva, se preferirem), que eu não tenho pena de vocês!

Evolução? Os genes dizem sim!

Quando pensamos na evolução das baleias, pensamos que o facto de as baleias serem mamíferos (as evidências preliminares) indica-nos que devemos encontrar mais evidências de que as baleias descendem de animais terrestres quadrúpedes. E essas evidências foram encontradas no genoma das próprias baleias e no seu desenvolvimento. Durante o mesmo, é observado o desenvolvimento de membros posteriores e de pêlos que depois são perdidos, á semelhança do que ocorre nos seres humanos, que evoluíram para terem menos pêlo do que os seus ancestrais.
E o que nos dizem os genes? Os genes contam-nos a mesma história que as observações durante o desenvolvimento.
Alguns dos genes conhecidos por serem utilizados em todos os mamíferos, para a formação de dentes eram os candidatos do costume: os produtos dos genes da ameloblastina, amelogenina e da enamelina são todos utilizados na formação do esmalte dos dentes, a estrutura mais dura do esqueleto dos vertebrados. Cientistas foram procurar esses genes em várias espécies de baleias sem dentes. Os resultados mostraram que todas as espécies estudadas tinham efectivamente estes três genes presentes como pseudogenes. Encontrar esses genes como pseudogenes em baleias sem dentes era exactamente o que a evolução previra, mas havia um problema: nenhumas das mutações que removeram as funções destes três genes foram compartilhadas entre as diferentes espécies, sugerindo que estes genes perderam a sua função de forma independente nas espécies estudadas. Este achado estava em desacordo com os dados do registo fóssil, o qual sugeria que os dentes foram perdidos apenas uma vez, e no início da linhagem que conduz a todas as baleias sem dentes modernos. Assim, os investigadores pareciam ter duas linhas de evidência que se contrariavam uma á outra. O registro fóssil sugere que a perda dos dentes ocorreu uma vez no ancestral comum de todas as baleias sem dentes, mas esses três genes parecem ter sido inactivados independentemente, várias vezes, o que sugere que a perda de dentes deveria acontecer mais tarde na evolução.
Uma explicação proposta para a aparente discrepância (entre várias propostas) era de prever que um quarto gene necessário para a formação do esmalte foi perdido no início da evolução dessas baleias. A perda de qualquer gene necessário para a formação do esmalte seria suficiente para impedir o processo como um todo. Neste caso, a perda deste quarto gene impediria a formação de esmalte dos dentes, embora as sequências genéticas dos outros três genes de esmalte ainda estaria intacto. Uma vez que a função esmalte estava perdido, mutações aleatórias nos genes do esmalte restantes poderia, então, acumular-se mais tarde na evolução depois da especiação neste grupo já estar em andamento. Para testar esta hipótese, o grupo de investigadores foi à caça de outros genes do esmalte em baleias sem dentes. E encontraram: um quarto gene, necessário para a produção de esmalte, e transformado com a mesma mutação em todas as baleias sem dentes modernos. O gene em causa foi destruído quando um elemento genético móvel (transposão SINE) se inseriu neste, dividindo-o em dois, tendo destruído a sua função.

O fato de que o mesmo a mesma mutação de inserção num local idêntico é encontrado em todas as espécies sem dentes modernas indica que esta mutação aconteceu uma vez num ancestral comum e, em seguida, foi herdada por todo o grupo.

E que mais nos dizem os genes das baleias? As baleias também têm um pseudogene para o factor XII da cascata de coagulação sanguínea, isto é uma versão do gene presente nos mamíferos terrestres. Isso está de acordo com o previsto pela evolução e demonstra que as baleias possuem um ancestral comum com outros mamíferos.

Referências:

- Semba U, Shibuya Y, Okabe H, Yamamoto T (1998) Whale Hageman factor (factor XII): prevented production due to pseudogene conversion. Thromb. Res. 90: 31– 37. (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9678675)


- Meredith, R.W., Gatesy, J., Cjeng, J., and Springer, M.S. (2011). Pseudogenization of the tooth gene enamelysin (MMP20) in the common ancestor of extant baleen whales. Proceedings of the Royal Society B: 278 (1708); 993 – 1002. (http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/early/2010/09/16/rspb.2010.1280.full.pdf)

Ateísmo e inteligência: os ateus são mais inteligentes?

Os ateus são mais inteligentes? Um estudo publicado na revista “Intelligence” revela que sim, baseando-se nos resultados dos testes de QI. As diferenças nos testes de QI podem não reflectir as diferenças relativamente às habilidades inatas, pois a instrução pode ajudar a melhorar os resultados. Isso apenas se aproxima do real se as pessoas tiverem o mesmo nível de instrução ou níveis próximos. Se considerarmos a inteligência como esse todo (educação e capacidades inatas), podemos considerar que sim. A explicação do autor do estudo para essa observação é a seguinte: «Se a pessoa é mais educada, tem acesso a teorias alternativas de criação do mundo. Por isso, o QI alto leva à falta de religiosidade». E quem já nasceu com mais capacidade que outros, tem mais facilidade em aprender. É de notar que a maioria dos cientistas (abrangendo todas as áreas) não acredita em deus, sendo encontrada a maior percentagem na área da biologia.
Há ainda que ter em consideração que muitos dos cientistas que acreditam em deus têm provavelmente uma posição muito próxima do deísmo, e não tanto da abordagem bíblica, visto que 95% dos que abrangem todas as áreas, incluindo engenharias e ciências computacionais, aceitam a teoria da evolução e mais de 99% dos que trabalham nas áreas das ciências da Terra e da vida.
De tudo isto se pode concluir que o “nível de religiosidade” diminui à medida que aumenta o nível de instrução e a inteligência.

Ser ateu não torna ninguém mais inteligente, mas é por ser inteligente que sou ateia. 


Ref.:


Cusquice: Rihanna está a transformar-se numa freira?

Rihanna nunca foi associada com o cristianismo, tendo sido até especulado que ela seguia uma espécie de culto neo-pagão ou até mesmo que era satânica. É também conhecida por vídeos e músicas de cariz sexual. Além de tudo isso, no primeiro mandato do presidente Obama, em Janeiro de 2009, cantou para este numa inauguração (Obama pode ser muita coisa, mas cristão é que não é). No entanto, em meados de 2012, Rihanna começou a revelar (via Twitter) que, pelo menos nessa data, se identificava com o cristianismo. Rihanna começou a publicar versos Bíblicos (por exemplo, sobre perdão – talvez relativamente ao ex-namorado, Chris Brown) e além disso, afirmou ser “fã” dos ensinamentos de Joyce Meyer, escritora de livros de auto-ajuda e pastora evangélica, afirmando também a sua fé na seguinte frase: «Whatever may be your task, work at it from the soul, as it was something done for Jah* and not for men,» e revelou, também em 2012 que a sua nova tatuagem nas costas simboliza deus (pelo menos para ela). Não é que para retirar algo positivo da Bíblia seja necessário ser cristão devoto; nem é necessário ser cristão. Mas o que ela disse nas entradas sobre os ensinamentos de Joyce Meyer deixou claro que Rihanna é cristã (se antes não era, passou a ser) e é bastante devota. E mais ainda: ela parece estar a transformar-se numa freira: numa entrevista em Maio de 2012 ficou muito chateada quando lhe perguntaram se queria reatar com o ex-namorado e afirmou (escandalizada) que vivia para si própria e para deus e não para os meios de comunicação. Mas as imagens, cuja publicação se seguiu á entrevista, sugerem que ela é tudo menos uma “freira”, que vive para si própria e para deus bem como os vídeos dela desde essa altura – “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”?
De qualquer modo, a sua devoção parece verdadeira. Esta mudança radical de atitude perante a religião (porque houve uma mudança evidente) parece derivada dos vários desgostos amorosos da cantora com Chris Brown (e outros, possivelmente). Digo isto porque a primeira referência a deus da cantora (que eu conheço) foi na altura do escândalo de violência doméstica com o ex-namorado Chris Brown: «My friends and family have been extremely supportive, and everyone has been there for me. But at some point you are there alone. It’s a lonely place to be – no one can understand. That’s when you get close to God.»
A partir daí ficou praticamente silenciosa sobre o assunto. Em 2012, quando os problemas com Chris Brown voltaram á superfície, ela virou-se para a religião de novo, o que é de espantar depois do que os cristãos disseram dela por todo o mundo.  
Outra hipótese é que seja uma manobra publicitária para ficar associada a Joyce Meyer e aumentar a sua popularidade. Mas se isso é verdade ela que não se esqueça que pode ganhar uns, mas perder outros.

Nota: Jah = Jeová.

Sites consultados:








segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Porque é que virtualmente todos os cientistas aceitam a teoria da evolução?*


Encontrei um vídeo que dá vários exemplos de dados da anatomia comparada, da embriologia, da genética molecular e da paleontologia que apoiam a teoria da evolução, enfatizando não apenas a existência de semelhanças, mas a existência de um padrão específico de semelhanças e diferenças. São também destacadas previsões nestes campos que foram cumpridas. Aqui está ele:



Deste modo estão resumidas algumas razões pelas quais virtualmente todos os cientistas aceitam a teoria da evolução.

Referências (apresentadas na descrição do vídeo):

- Sources: Gilbert, S. F. (1997) Developmental Biology. Fifth edition. Sinauer Associates.
- Carroll, R. L. (1988) Vertebrate Paleontology and Evolution. New York, W. H. Freeman and Co.
- Futuyma, D. (1998) Evolutionary Biology. Third edition. Sunderland, Mass., Sinauer Associates.
- Gould, S. J. (1990) "An earful of jaw." Natural History 3: 12-23.
- Kardong, K. V. (2002) Vertebrates: Comparative Anatomy, Function, Evolution. Third ed. New York: McGraw Hill.
- Rubin, G. M. et al. (2000) "Comparative Genomics of the Eukaryotes." Science 287: 2204-2218.
- Schmid, K. J., and Tautz, D. (1997) "A screen for fast evolving genes from Drosophila." Proc. Natl. Acad. Sci. USA. 94: 9746-9750. http://www.pnas.org/cgi/content/full/...
- Sereno, P. C. (1999) "The Evolution of Dinosaurs." Science 284: 2137-2147.
- Smit, A. F. A. (1996) "The origin of interspersed repeats in the human genome." Current - Opinion in Genetics and Development 6: 743-748.
- Thornhill, R. H., and Ussery, D. W. (2000) "A classification of possible routes of Darwinian evolution." Journal of Theoretical Biology 203: 111-116.
- Voet, D., and Voet, J. (1995) Biochemistry. New York, John Wiley and Sons.
- Williams, G. C. (1992) Natural Selection: Domains, Levels, and Challenges. New York, Oxford University Press.
- Scarpulla, R. C., and Nye, S. H. (1986) "Functional expression of rat cytochrome c in Saccharomyces Cerevisiae." Proc Natl Acad Sci 83: 6352-6.
- Shimamura, M., et al. (1997) "Molecular evidence from retroposons that whales form a clade within even-toed ungulates." Nature 388: 666.
- Smit, A. F. A. (1996) "The origin of interspersed repeats in the human genome." Current Opinion in Genetics and Development 6: 743-748.
- Stewart, C. B. and Disotell, T. R. (1998) "Primate evolution - in and out of Africa." Current Biology 8: R582-588. [PubMed]
- Svensson, A. C., N. Setterblad, et al. (1995) "Primate DRB genes from the DR3 and DR8 haplotypes contain ERV9 LTR elements at identical positions." Immunogenetics 41: 74.
- Sverdlov, E. D. (2000) "Retroviruses and primate evolution." BioEssays 22: 161-171.


* Nota: Cerca de 99%

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A Rainha Negra: Esta carta eu não quero.

Parte da complexidade dos genomas e o aumento bruto do seu tamanho podem ser explicados por uma combinação de fatores não-adaptativos - como a dominância da deriva genética associada a perda de eficiência da selecção natural em populações pequenas, e adaptativos indirectos como os associados aos simbiontes, comensais e parasitas genómicos que povoam os genomas dos seus hospedeiros. O genoma pode ganhar genes, mas também pode perdê-los. Isso pode ser através da dispensabilidade dos mesmos ou pode mesmo haver vantagem selectiva na sua perda. Esta é a hipótese da rainha negra (1): A hipótese foi assim designada em função da Dama de Espadas no jogo de copas, onde a estratégia habitual é evitar ficar com esta carta. 
A hipótese da rainha negra propõem-se a explicar a evolução através da redução que acontece em microrganismos de vida livre habitantes de comunidades complexas que, muitas vezes, perdem genes fundamentais. Como já foi mencionado, a perda na evolução de espécies de vida livre parece envolver selecção, ou seja, parecem haver vantagens reprodutivas devido a tal perda. Essas vantagens podem levar a que os micróbios, ao perderem certos genes, se tornem dependentes do metabolismo de outras espécies, quer para a produção de certos compostos essenciais, quer para a destoxificação de outros.
Esta hipótese faz uma previsão: a perda de uma função metabolicamente custosa, mas que seja a origem de bens comuns (na comunidade de micróbios) seria selectivamente favorável ao nível dos indivíduos, pois estes organismos poderiam contar com a produção desses bens, pelo menos, enquanto estes puderem sustentar a comunidade. Este tipo de evolução daria origem a beneficiários que iriam adquirir a vantagem do seu conteúdo genómico reduzido e benevolentes dos quais dependeriam os primeiros tipos de microrganismos que seriam dependentes da produção/degradação de certas moléculas realizada por outros. Quem se debruçou sobre o assunto foi Richard Lenski (et al), cuja pesquisa foi publicada na revista “mBio” (American Society for Microbiology) com o título “The Black Queen Hypothesis: Evolution of Dependencies through Adaptive Gene Loss”

Refs.:


Selecção sexual: O tamanho importa…

Cientistas australianos avaliaram quais as características que afectavam a atracção das mulheres pelo corpo masculino.
O estudo publicado na revista PNAS mostra que o tamanho importa. Os investigadores da Universidade Nacional da Austrália analisaram a reacção de um grupo de mulheres a 343 formatos de corpos masculinos diferentes e descobriram que existem algumas características que deixam um homem mais atraente, entre elas o tamanho do pénis.

Amostragem e Métodos: Para descobrir se as mulheres realmente acham o tamanho importante, investigadores da Universidade Nacional da Austrália realizaram uma pesquisa com 105 voluntárias heterossexuais australianas. Elas foram apresentadas a uma série de figuras masculinas geradas por computador, que variavam em três características: tamanho do pénis (em estado flácido), altura e proporção entre ombros e cintura (pesquisas anteriores já haviam mostrado que homens com altos valores nas duas últimas características são mais atraentes). As figuras mostravam sete variações em cada uma dessas características, fornecendo, ao todo, 343 formatos diferentes de corpo. As mulheres tinham de avaliar cada figura conforme sua atractividade, ajudando assim os investigadores a descobrir quais as características que eram mais importantes.  

Resultados:  Ao analisar os dados, os autores do estudo descobriram que as três características importavam para medir o quanto uma mulher considerava o corpo de um homem atraente. Descobriram que a característica mais importante para um homem ser considerado atraente é a proporção entre o tamanho dos ombros e a cintura. Em seguida, aparecem empatados a altura e o tamanho do pénis. Essas características também se relacionam entre si, e as mulheres consideraram o tamanho dos órgãos genitais mais importante entre os homens mais altos e com maiores proporções entre ombro e cintura.

Selecção natural e sexual: O tamanho médio do órgão sexual masculino, entre os humanos é o maior dos grandes primatas – os parentes evolutivos mais próximos. O gorila, por exemplo, apesar de poder chegar até os 2 m de altura, tem um pénis de apenas quatro centímetros – o humano, flácido, tem um tamanho médio de 9 centímetros e de 14 centímetros erecto. Isso costuma ser explicado pela taxa de sucesso que os diferentes tipos de pénis têm na hora da fertilização: tenderiam a ser seleccionados os órgãos sexuais responsáveis pelos maiores índices de sucesso reprodutivo. Os cientistas, contudo, dizem que o tamanho dos genitais masculinos também pode ser produto de selecção sexual, e a preferência feminina teria, nesse caso, ajudado a seleccionar pénis cada vez maiores na espécie humana.
Os índices de atractividade também estiveram relacionados com o biótipo da mulher que avaliava as figuras. Quanto mais alta fosse a voluntária, mais importância era atribuída à altura masculina. Também houve uma pequena tendência para as mulheres mais gordas darem mais importância ao tamanho do órgão sexual.  
Os cientistas dizem que é difícil explicar as origens dessas preferências femininas, que podem ter causas tanto culturais quanto biológicas. Mas concluem que, independente do mecanismo por trás disso, o resultado do estudo apoia a hipótese de que as escolhas de companheiros por parte das mulheres pode ter levado à evolução de maiores pénis nos seres humanos. É importante ressaltar que essa preferência tem origens pré-históricas, quando não se usavam roupas.  


Refs.:

- Revista Veja


- Penis size interacts with body shape and height to influence male attractiveness, Brian S. Mautz et al (PNAS) (resumo disponível em: http://www.pnas.org/content/110/17/6925.abstract

“The edge of evolution”: revisão III

Como já referi anteriormente, Michael Behe calculou a probabilidade de duas mutações ocorrerem em simultâneo. Para Behe, a baixa probabilidade de duas mutações ocorrerem em simultâneo (na mesma célula) diz-nos que a ocorrência é impossível (por causas naturais). Mas os cálculos de Behe estão muito longe de abordar a situação real, como também já referi. No entanto, há quem continue a afirmar que Behe está correcto (criacionistas como ele (*a)). Mas o biólogo Steve Matheson (biologia celular) explicou (mais uma vez) porque é que Behe estava errado e os cálculos não tinham nada de realista (*b) o problema é exactamente este: não se pode fazer esses cálculos como se os eventos fossem ocorrer na mesma célula (em simultâneo), quando há vários possíveis descendentes onde pode aparecer a segunda mutação ou quando a mutação se pode fixar (até por deriva genética). Parece é que os criacionistas não conseguem admitir que os seus ídolos (como Behe, por exemplo) estão errados e que isso é mais uma razão para a hipótese da criação permanecer no caixote do lixo onde tem estado desde o tempo em que Charles Darwin publicou a sua obra prima, “A Origem das Espécies”. Acabou. Ou os criacionistas aceitam isso ou então convém calarem-se para não fazerem más figuras. O que mantém o criacionismo vivo é que as pessoas religiosas têm necessidade de um “pai do céu” (e não uma entidade que apenas criou o universo, à semelhança do deus dos deístas), tal como por vezes as crianças têm necessidade de ter amigos imaginários. 

*Notas: a.) Michael Behe demonstrou no seu primeiro livro uma posição mais “soft” relativamente à ideia do design inteligente. Ele apontava apenas para certos casos particulares que ele designou como irredutivelmente complexos, enquanto que neste parece estender a sua opinião sobre o criacionismo do design inteligente até a um banal par de mutações. Behe é um criacionista no sentido estrito (embora não acredite numa terra jovem) e não um “evolucionista teísta”. Li que Behe era católico. Mas será que passou a ser evangélico? Se não passou, parece.
              b.) Behe and probability: one more try (disponível em: http://sfmatheson.blogspot.pt/2010/04/behe-and-probability-one-more-try.html#more) – é de leitura recomendada 

Selecção natural na Terra primitiva e o papel do ferro

As moléculas grandes de RNA usam magnésio (Mg2+) para desempenharem as suas funções (catalíticas). Numa época pré-biótica, a estrutura geológica da Terra tinha um grande manancial de iões de ferro (Fe2+). A pesquisa de Loren Dean Williams mostrou que o ferro foi provavelmente o principal co-fator de activação para que o RNA fizesse o seu trabalho. Este cientista e a sua equipa testou se o ferro podia substituir o magnésio e este de facto podia. Esta pesquisa fora publicada na PloS One e também na Nature.
Mas o planeta era instável. Com a ascensão dos primeiros organismos fotossintéticos, a atmosfera começou a ter oxigénio em abundância e o Ferro II passou a ser oxidado, perdendo um electrão e transformou-se em Ferro III, e isso prejudicou os seres vivos primitivos.
E é aqui que entra em cena a Selecção Natural, que começou também a fazer seu trabalho e as mutações que ocorreram, as quais propiciaram ao RNA usar não só Ferro II, mas outro metal, o Magnésio II. As moléculas de RNA que não tinham esta capacidade de usar outro metal como co-fator foram negativamente seleccionadas, só ficando os que tinham esta nova capacidade.
Isto tudo significa que devemos a nossa existência a essas moléculas de RNA com uma ajudinha dos iões Ferro II e Magnésio II.
A vida nasceu de reacções químicas simples e acabou com a complexidade que vemos hoje após milhões e milhões de anos. É interessante como com um pouco de ciência se consegue descobrir até algumas características dos nossos antepassados de há cerca de 4 mil milhões de anos, que não eram mais (ou eram pouco mais) que moléculas de RNA com capacidade catalítica.

Ref.:

http://www.plosone.org/article/fetchObject.action?uri=info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0038024&representation=PDF

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Tretas dos cristãos

De um vídeo* que mostra a jornalista brasileira Raquel Sherazade a dizer disparates sobre ateísmo e religião, quero abordar um ponto que me chamou a atenção:
“Cristianismo é uma escolha pessoal e racional (…) onde até o baptismo de crianças católicas precisa de ser confirmado na idade da razão” (A propósito de uma espécie de manifestação organizada por alguns ateus contra a imposição do baptismo).
A última parte está bastante próxima da realidade. Mas normalmente a confirmação católica, também designada por crisma pode ser feita a partir dos 14 anos (deve ser essa a idade da razão a que os católicos e outros cristãos se referem), que é muito cedo para decidir que religião é que se quer seguir para o resto da vida. Sei isto porque tive uma madrinha muito católica, que até convenceu a minha mãe a baptizar-me e a mandar-me à catequese, embora eu não tenha ido longe nisso (na catequese, não fui muito além da primeira comunhão). Além disso na minha turma quase toda a gente fazia a confirmação ou crisma. Em religiões protestantes não tenho a certeza de que idades escolhem para fazer o equivalente ao crisma, mas sei que Dawkins, no seu tempo foi confirmado na Igreja de Inglaterra aos 13 anos (1), o que é ainda pior. Além de tudo isto há ainda uma religião cristã (ortodoxa) que crisma as crianças quando são ainda muito pequenas (2).
Desde quando é que o cristianismo é uma escolha pessoal a esse nível? Não é sequer uma escolha; é imposto ás crianças e adolescentes ficarem a pertencer a esta ou àquela religião porque os levaram a participar em certas cerimónias com certos procedimentos (sem eles terem idade para decidir considerando várias questões com um entendimento razoável das mesmas) dos quais muitas vezes nem percebem nada mesmo que frequentem a catequese (como é o caso do crisma ou confirmação). Muitos destes não são apenas levados a participar nisso são mesmo obrigados pelos pais ou outros familiares. Há ainda casos em que fazem porque a maioria dos amigos faz ou algo do género, o que não sendo uma imposição directa, resulta de um clima propício devido ás próprias regras (em termos de idades) da Igreja Católica, não sendo de modo algum uma escolha racional, nem mesmo relacionada com a religião em questão. Lá se vai a parte da escolha racional. E ainda que o baptismo possa ser ou não confirmado na “idade da razão”, o bebé ou a criança muito pequena não escolhe ser baptizada, não escolhe participar nessa cerimónia religiosa.
Na minha opinião, não devia sequer existir nada disso. Mesmo que só permitissem a confirmação (ou fizessem apenas o baptismo) a partir dos 18 anos (quando se é oficialmente maior de idade), por exemplo, uma pessoa pode mudar de religião aos 30, 40 anos e viver aproximadamente metade (ou mais) da sua vida com outra religião ou sem nenhuma. E não interessa se é crismado ou se só é baptizado ou nenhum dos dois. Deixa de ter qualquer significado.


*Nota: Aqui fica o vídeo:




Refs.:



2.     http://pt.wikipedia.org/wiki/Sacramento_(cristianismo)


P.S.: Se dependesse de mim, a cabra ignorante e burra seria despedida, mas não por ser religiosa, mas porque, além de ser burra e ignorante, é mal educada em directo. 

Selecção natural e doenças

Sabemos que os genes vizinhos tendem a ser herdados juntos e que alelos que não têm qualquer vantagem evolutiva podem aumentar de frequência ao apanharem boleia com os genes vizinhos que são positivamente seleccionados. Como referido anteriormente, em certos casos este fenómeno pode contribuir para a especiação quando 2 populações divergem. Mas também pode contribuir para que certas mutações prejudiciais, que estão no gene vizinho do gene benéfico, aumentem de frequência numa população, explicando porque é que algumas doenças são tão comuns nos humanos, por exemplo.
Cientistas procuraram evidências de que isso aconteceu no genoma humano.
Para verificarem se os SNP’s (single nucleotide polymorphisms) eram neutros, os investigadores usaram o seguinte raciocínio: se uma alteração em particular também é encontrada noutros animais, é provável que seja neutra, sendo bom saber que 72% dos genes de doenças humanas conhecidas foram classificadas como prejudiciais usando este método (1). Os SNP’s prejudiciais (em zonas em que se verificasse o fenómeno inicialmente descrito) deveriam ter uma frequência elevada comparados com os neutros. E foi esse o caso. Além disso, a taxa de SNP’s prejudiciais deveria ser mais elevada quanto mais próximo da região vizinha do gene positivamente seleccionado em que os genes costumam “apanhar boleia” e decrescer com a distância, pois genes mais afastados têm mais tendência a ser separados por recombinação e isso também se verificou. Ao fornecer evidência para a riqueza em variantes nocivos das regiões de boleia, os autores do estudo intitulado “Evidence for Hitchhiking of Deleterious Mutations within the Human Genome” (2) também forneceram evidência de que estas regiões são indicativos da influência de selecção positiva. O estudo é de leitura aconselhável.

Refs:


  1. http://genome.cshlp.org/content/19/9/1553.full.pdf+html
  2. http://www.plosgenetics.org/article/fetchObject.action?uri=info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pgen.1002240&representation=PDF

DNA parasítico no genoma

Elementos móveis (Alu), também designados por DNA parasítico povoam o nosso genoma e podem ser bons, maus ou indiferentes.
Considerando o que se sabe sobre estes elementos de DNA parasítico posso listar benefícios e potenciais fontes de prejuízo dos mesmos:

- Benefícios:

·        podem participar no controlo da expressão genética
·        podem ter funções estruturais
·        podem ser convertidos em genes funcionais

- Prejuízos:

·        podem causar mutações prejudiciais por “saltarem” para o meio de um gene fundamental
·        podem destabilizar o genoma por prejudicarem certas interacções físicas
·        podem gerar RNA tóxico para a célula (que deve ser manobrado por outros sistemas)

Este balanço entre “qualidades” e “defeitos” foi enfatizado na revisão por John L. Goodier e Haig H. Kazazian, Jr, publicada na revista Cell em 2008 (1). Apesar disso certos criacionistas* fazem de conta que os últimos três tópicos relativos á acção dos elementos em questão não existem. É triste.



* Nota: ver «“Junk” DNA: An Outdated Concept» (disponível em: http://www.reasons.org/articles/%E2%80%9Cjunk%E2%80%9D-dna-an-outdated-concept-part-6-of-6)


Sobre reparação do DNA, mutações e evolução

O artigo de William DeJong e Hans Degens, “The Evolutionary Dynamics of Digital and Nucleotide Codes: A Mutation Protection Perspective” (1) (o qual os criacionistas adoram citar) faz uma grande confusão ao sugerir que os mecanismos de protecção contra as mutações presentes nas células constituem um problema para a teoria da evolução, parecendo querer dizer que o que este mecanismo permite em termos evolutivos é muito restritivo, tendo que ser desligado ou ficar disfuncional, mas que por outro lado a evolução deste traria vantagem. É que isso não é bem assim. Na vida real em certas ocasiões os danos no DNA não são reparados (com o mecanismo a funcionar normalmente), o que leva ao aparecimento de muitas mutações neutras (ou pelo menos próximas disso), que são uma maioria, poucas vantajosas e algumas prejudiciais. E assim, podemos determinar a taxa de mutações, por exemplo contando as mutações que ocorreram entre gerações. Estas mutações são uma mais valia para a evolução, que parece funcionar muito bem (reparem nas experiências de Richard Lenski). Portanto, se eu tivesse que classificar este artigo numa escala de 0 a 10 eu atribuía-lhe um 2. Está muito desligado da realidade biológica.  

Quanto à evolução do mecanismo, os cientistas sabem como ocorreu. P. J. O’Brien teve um artigo seu publicado em 2006 (Chemical Reviews) intitulado "Catalytic promiscuity and the divergent evolution of DNA repair enzymes", onde trata desse assunto e é citado num artigo de revisão sobre a evolução, através da promiscuidade enzimática, de funções que podem ser melhoradas (através de mutações) e vantajosas (referência 11) (2). É basicamente isto: as enzimas vão de especialista a generalista e de generalista a outro especialista.

Nota: Chamo a atenção para o facto do artigo de William DeJong e Hans Degens não apoiar o design inteligente.


Refs:




P.S.: O Sérgio (Mats) disse uns quantos disparates num texto no blog dele sobre este assunto, que tem como fonte um site criacionista: O mecanismo de reparação do ADN está de acordo com a teoria da evolução?(http://darwinismo.wordpress.com/2013/07/30/o-mecanismo-de-reparacao-do-adn-esta-de-acordo-com-a-teoria-da-evolucao/). Cada vez que o Mats escreve um texto demonstra a sua ignorância em assuntos de biologia e, neste caso particular, de biologia molecular.

terça-feira, 23 de julho de 2013

A Evolução é um processo intencional?

A resposta á pergunta acima é não. Não há intenção, não há propósito no processo evolutivo de mutações aleatórias, selecção natural e sexual e deriva genética. Como nos indica o título da obra de Richard Dawkins que se dedica a explicar o processo evolutivo, as forças evolutivas são como um relojoeiro cego: produzem resultados que aparentemente parecem ter sido o resultado de uma acção intencional, mas com uma análise mais profunda detecta-se que não são. É claro que como analogia ou metáfora, uma pista ou escolha intencional é boa para descrever a selecção natural, por exemplo, fazendo uma analogia com a selecção artificial (escolha intencional) ou, para explicar a uma criança como funciona, podemos usar a metáfora do “quente e frio” ou da escolha (intencional) das bonecas loiras ou morenas para brincar. Mas é claro que na realidade nua e crua não há intenção no processo evolutivo.
Esta questão lembra-me uma conversa que tive com um criacionista* (no blog “Darwinismo”) a quem eu tentei, durante essa conversa, explicar a diferença entre a evolução com e sem selecção natural com a metáfora do “quente e frio”, como se ele tivesse 6 anos. Mas o criacionista em questão nem assim conseguiu perceber nada e ao responder só disse disparates como, por exemplo, que nesse caso também intervinha quem fabricou a pulseira e quem dava as instruções e que eram ambos agentes inteligentes. É triste. É muito triste que ele nem consiga perceber uma explicação que normalmente se dá a uma criança. O QI desse criacionista deve ser muito baixo, o que, associado à má vontade e à desonestidade, torna inútil qualquer tentativa de comunicação. Assim, é quase impossível melhorar a compreensão da pessoa.

Voltando á intencionalidade na evolução: é exactamente por não existir intencionalidade na evolução, ou seja, por não termos sido concebidos com um propósito que as pessoas religiosas tiveram que continuar a acreditar no criacionismo e que o reciclar para fazer a versão design inteligente. É que o facto da evolução não ser intencional e funcionar tão bem como funciona, torna a ideia de um deus criador desnecessária e explica muito bem como as coisas ocorreram, ao passo que “deus fez” no fundo não explica nada.  

*Nota: O criacionista em questão assina "jephsimple" (seguir hiperligação).