terça-feira, 17 de setembro de 2013

“Suck it Creationists!”




Usando as suas barbatanas para andar, em vez de nadar, ao longo do fundo do oceano, o peixe com mãos cor-de-rosa é uma das nove espécies recém-nomeadas e descritas numa recente revisão científica. Isto torna, na minha opinião, a transição de peixes para tetrápodes ainda mais plausível, e pode dar algumas pistas sobre o uso das primeiras patas pelos peixes.  

Ref.:

- New, Pink, and Rare, Carolyn Barry, May 24, 2010 (disponível aqui: http://news.nationalgeographic.com/news/2010/05/photogalleries/100524-new-species-handfish-walk-science-pictures/



Confusão sobre o genoma humano

Hoje vi isto. Santa ignorância – só mesmo um criacionista para citar o artigo “Dissecting Darwinism” e dizer que o humano e o rato têm 90% do genoma igual.

Essa percentagem supostamente está num artigo publicado na Nature (1).
Esses 90% de semelhança entre o rato e o humano nada têm a ver com semelhança sequencial do genoma, mas sim com a sintenia conservada, isto é com a localização dos genes (ex.: gene A, gene B, gene C, etc). Tive acesso ao artigo completo e não encontrei nada que dissesse que existe 90% de semelhança, nem nada próximo disso (relativamente ao genoma) entre o rato e o humano.

Um conselho para os criacionistas: Não falem daquilo que não sabem/ não compreendem.

Relativamente ao artigo “Dissecting Darwinism”, este foi mencionado há uns tempos num anexo de um texto que tratava da lista de artigos que, na opinião de uns quantos criacionistas, apoiavam o design inteligente. É péssimo.
É necessário referir que (ao contrário do que está nesse artigo) as partes não codificantes são na sua maioria constituídas por lixo, embora uma pequena parte seja funcional.
O artigo não é nada imparcial e recebeu críticas negativas de vários cientistas, apontando que a afirmação de que existe apenas 75% de semelhanças entre o genoma do chimpanzé e do humano não está de acordo com os dados (2). Pude também verificar que a referência (33) não é nada de fiar (Wells J. The Myth of Junk DNA. Seattle, WA: Discovery Institute Press; 2011.).
Um facto sobre a semelhança entre o genoma do humano e do chimpanzé: em vez de serem 98% do genoma são 95% (é menos, mas não é muito menos do que se pensava ao princípio). 

Acrescentando que o que está no fim é quote mining, é tudo.

Refs.:


  1. http://www.nature.com/nature/journal/v420/n6915/pdf/nature01262.pdf
  2. http://www.baylorhealth.edu/Documents/BUMC%20Proceedings/2012%20Vol%2025/No.%202/25_2_Reader_comment.pdf

De volta ao Tiktaalik

O Tiktaalik (descoberto em 2004 no Canadá) é um fóssil de transição (peixes-tetrápodes) e só existe uma espécie desse género: Tiktaalik roseae. Embora possa não ser ancestral directo, demonstra que uma vez existiram intermediários entre tipos muito diferentes de vertebrados. A mistura de características de paixes e tetrápodes encontrada no Tiktaalik inclui as seguintes características:

- brânquias dos peixes
- escamas de peixe
- barbatanas dos peixes
- ossos dos membros meio de tetrápodes e articulações, incluindo a articulação do punho e radiantes e barbatanas, como nos peixes
- a região da orelha meia-tetrápode, meio-peixe
- costelas como nos tetrápodes
- pescoço móvel
- pulmões como nos tetrápodes

Pegadas de tetrápodes foram encontradas na Polónia e a descoberta relatada na revista Nature em Janeiro de 2010. Estas foram "seguramente datadas", tendo sido confirmado que são mais antigas que Tiktaalik. Se este é um registo verdadeiro de tetrápode, Tiktaalik é uma "relíquia que sobreviveu até tarde" em vez da forma de transição original. Uma interpretação alternativa é que as pegadas foram feitas por peixes que andavam.
Ainda que as pegadas sejam feitas por tetrápodes (o que não pode ser tido como facto), o Tiktaalik continua a poder ser considerado um fóssil de transição, sendo um animal com características intermediárias, que demonstra que de facto houve uma transição. (1)

Os criacionistas têm andado pela internet a pregar mentiras a respeito do status do Tiktaalik, tentando apoiar-se nessas tais pegadas, mas a realidade é que este continua a ser uma evidência da evolução, enquanto fóssil de transição, berrem eles o que berrarem, chorem eles o que chorarem. O Mats é um desses criacionistas (2). Ele (e outros criacionistas) tem que aprender de vez o que é um fóssil de transição, pois assim talvez deixe de fazer figuras de urso – e eu já lho disse, só que ele optou por ignorar os meus conselhos e críticas. Provavelmente sente-se rebaixado. Coitado do Mats. Além disso é possível que tenha lido o que eu tenho escrito sobre ele aqui no blog e deve estar mesmo furioso. E deve de facto sentir-se um tanto rebaixado. Eu percebo que às vezes pode ser difícil aceitar a realidade sobre si mesmo, as suas acções e atitudes e as ideias que defende, mas essas coisas precisam de ser ultrapassadas… Bem daqui a pouco mudo a minha licenciatura em curso para psicologia e abro um consultório. Talvez assim os criacionistas procurem os meus conselhos e me façam rica – até porque para criacionistas cada consulta seria mais cara, pela paciência redobrada que seria necessária.  
O conceito de fóssil de transição é fácil, tanto que se aprende no secundário e em qualquer site de divulgação científica dirigido ao público leigo (como o do NCSE) ou até mesmo na Wikipédia. Não é assim tão difícil estar informado sobre o assunto; só para os idiotas dos criacionistas é que parece ser inatingível.


Refs.:

1. «Tiktaalik», Wikipédia (http://en.wikipedia.org/wiki/Tiktaalik)


Testando (quantitativamente) previsões evolutivas


HOMOLOGIA E CONVERGÊNCIA REVERSA

Em Agosto deste ano (2013) foi publicado na revista “ Plos One” um estudo em que se testava mais uma previsão da teoria da evolução.

Na introdução lê-se o seguinte: «No caso da evolução, uma forte previsão da  "descendência com modificação" é que, à medida que avançamos mais e mais para trás no tempo, as sequências de uma determinada proteína devem tornar-se cada vez mais semelhantes - chamamos isso convergência ancestral ou convergência reversa. A previsão da teoria da evolução é que sequências de DNA ou proteínas que realizam as mesmas funções básicas em diferentes organismos são geralmente herdados de um ancestral comum - neste sentido, eles são verdadeiramente proteínas homólogas (ou ortólogas). Temos de ser capazes de medir essa convergência e testá-la quantitativamente. Na prática, embora a informação venha principalmente a partir de sequências de DNA, podemos convertê-las em sequências de proteínas para os testes. Como veremos mais tarde, de momento não podemos ainda encontrar qualquer outra hipótese que conduz inevitavelmente á mesma previsão sem um aumento explosivo no número de parâmetros.» Sobre o método científico, os autores continuam: «É básico para a ciência que nunca testámos todas as hipóteses possíveis e, consequentemente, nunca obtemos o conhecimento supremo e absoluto sobre qualquer aspecto do universo. No entanto, o método científico fornece a melhor forma de conhecimento que os seres humanos podem atingir, e assegura que usamos aquilo que foi mais exaustivamente testado (…)»

O que me parece é que isto é mais uma abordagem para testar quantitativamente se certas proteínas são homólogas (no sentido de partilharem um ancestral comum).

Mais ainda: «Como controlo, mostramos que as proteínas não relacionadas não mostram convergência. ... Isso claramente não "prova" que os modelos ainda desconhecidas são impossíveis, mas a teoria da evolução leva a previsões extremamente fortes, e por isso a responsabilidade recai agora sobre os outros para propor alternativas testáveis​​.» (1)

Agora quem não concorda vai ter que deitar mãos á obra e propor algo de concreto, que faça previsões testáveis, tal como os cientistas já propuseram: propuseram que podemos relacionar espécies em termos de ancestralidade comum, recorrendo ao DNA (genes homólogos – mais propriamente ortólogos). E de facto podemos. Existem proteínas verdadeiramente homólogas. E até podemos testar isso quantitativamente. Quanto ao mecanismo proposto, que se tem mostrado bastante bom para explicar as observações, esse só precisa que haja replicação/reprodução e interacção dos organismos de uma população com o ambiente e uns com os outros.

Os criacionistas do Discovery Institute já começaram a queixar-se. E de que é que eles se queixam? Do tom desrespeitoso dos autores do artigo (2). Um link para o artigo encontra-se nas referências, para que possam ler e confirmar que isso é mania da perseguição do criacionista que fez tal afirmação. Mas a verdade é que os criacionistas estão-se nas tintas para isso. Como não conseguem criticar em termos técnicos o artigo, têm que inventar alguma coisa para dizer. É o costume: mesmo quando não sabem o suficiente para comentar, têm sempre que ter a última palavra. Isso é bom para quem está na oposição, pois assim eles espalham-se á frente de toda a gente. Coitados.

Refs.:


  1. White WTJ, Zhong B, Penny D (2013) “Beyond Reasonable Doubt: Evolution from DNA Sequences.” PLoS ONE 8(8): e69924. doi:10.1371/journal.pone.0069924 (disponível aqui: http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0069924)
  2. Science with a Sneer: A New Model for Scientific Papers?” (via «The Sensuous Curmudgeon»)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

E as "portas" respondem...

O mesmo criacionista que andou a encher de lixo a minha caixa de entrada da outra vez, desta vez resolveu encher a caixa de comentários de merda. Fica aqui um segundo comunicado (para os criacionistas): é favor não encher a caixa de comentários de merda. A merda que aparecer será varrida para onde diz "Spam". Obrigada.

Falar com um criacionista é falar com uma porta


Eu mandei um e-mail para os criacionistas deixarem de encher o meu e-mail de lixo (e deixei o mesmo recado na minha introdução do perfil do blogger). Não deu resultado. Um criacionista (tersiog@petrobras.com.br) voltou a encher mais um pouco da minha caixa de entrada com o lixo (desta vez insultuoso) proveniente da sua diarreia mental e verbal.
Sendo sincera nunca pensei que resultasse. É que falar com um criacionista é a mesma coisa que falar com uma porta.

Mantendo a diversidade

Alelos benéficos numa população podem nunca chegar a fixar-se, mantendo-se a variabilidade genética (nenhum dos 2 alelos se fixa). Além disso, as frequências alélicas são determinantes para que o alelo seja “benéfico” ou “prejudicial”. Quem descobriu isto foi uma equipa de cientistas portugueses que resolveram testar a teoria de Haldane, que tem sido utilizada em genética de populações, usando uma população de C. elegans onde foi introduzido um novo alelo. 
Descobriram que quando os invasores se saíam melhor do que os outros, a introdução de mais indivíduos iria baixar a probabilidade de extinção. Também confirmaram que a probabilidade de extinção é maior para alelos prejudiciais do que para alelos benéficos, ainda que durante gerações se pudessem manter indivíduos menos bem adaptados em frequências elevadas (sobretudo em populações pequenas), ou seja Haldane estava certo no que se refere á fase inicial de invasão.
Quando a equipa estudou a probabilidade de fixação de um alelo benéfico (frequência = 100%), usando uma população inicial com mais indivíduos com o novo alelo (frequência mais elevada), os cientistas repararam na influência da frequência do alelo no seu valor selectivo/ adaptativo.
O resultado desta dinâmica é que a diversidade pode ser mantida por tempo indefinido, sem que nenhum dos 2 alelos se fixe na população.
A segunda parte do estudo sugere que para prever o destino de novos alelos a longo prazo, devem ser desenvolvidos novos modelos teóricos, embora aqueles que possuímos sejam óptimos para previsões a curto prazo

Nota (para os criacionistas): Isto não implica uma mudança de paradigma, apenas uma expansão do conhecimento acerca do modo como as populações evoluem. Esta nota vem a propósito deste disparate: http://darwinismo.wordpress.com/2013/08/15/9853/#comment-22029

Ref.:

“Fate of new genes cannot be predicted” (Disponível aqui: