segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Teoria da Evolução vs Criacionismo: o “Cientista X” (reeditado)


O argumento do cientista X já deu o que tinha a dar (zero). Não é isso que faz com que o design inteligente seja plausível ou que tem capacidade para competir com a teoria da evolução (e muito menos invalida a mesma. No entanto, os membros do Discovery Institute parecem não se aperceber disso. Além disso, muitos cientistas não interpretaram a famosa lista do Discovery Institute (“Scientific Dissent from Darwinism”) como os membros do Discovery desejam que ela seja interpretada pelo público. E isso foi demonstrado quando, após as respostas dos signatários terem sido maioritariamente dirigidas ao facto da teoria de Darwin ser insuficiente na explicação sobre a origem da vida, os responsáveis deixaram de aceitar respostas. Outro exemplo que demonstra isso é que da lista já pelo menos um signatário retirou a sua assinatura, afirmando que as controvérsias são“internas” á teoria (Robert C. Davidson). Continuando: os criacionistas que usam o argumento do cientista X adoram o exemplo do Dr. Stanley Salthe (talvez por ser ateu, talvez por ser “evolucionista”), mas nem sabem qual é a origem do desacordo relativamente á sua posição. Esta pode ser representada por: a Teoria Sintética da Evolução necessita de ser completada com outras teorias sobre a evolução da vida – ex.: aplicação da teoria dos sistemas (funcionamento integrado dos sistemas biológicos, emergência de propriedades biológicas, hierarquia, teoria geral dos sistemas) (1; 2). Como se isso não bastasse, o cientista afirma que não sabia a que se dedicava o Discovery Institute e declara sobre o design inteligente: “From my point of view, it's a plague on both your houses” (3). Até fiquei bastante admirada por esse nome ainda estar na lista dos "cientstas X" (5).
Como se não bastasse toda esta confusão, exageram nas credenciais dos signatários. Richard von Sternberg é um deles (5). Dado como membro do Smithsonian, este nunca o foi e foi repreendido por incompetência quando trabalhava no Biological Society of Washington (4).
Resumindo e concluindo: a lista é mais um epic fail criacionista.
Referências:
 
 
Leitura adicional:
 
 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Por que não acredito em deus (reeditado)


Alguns ateus poderiam dizer que o que os levou á descrença em deus foi o estudo da teoria da evolução (e/ou de outras relacionadas com as origens), Richard Dawkins incluído. Não foi isso que me levou a não acreditar em deus.
Primeiro que tudo, nunca houve um conflito entre o relato do génesis e a teoria da evolução porque desde pequena que me foi ensinado em casa que os seres humanos descendem de ancestrais parecidos com macacos, que a terra é muito antiga, que os primeiros seres vivos eram simples e que ainda não se sabia ao certo como começou a vida na terra. No entanto tive contacto com a religião e com a história do génesis na catequese, apesar dos meus pais serem agnósticos (no sentido de “não se pode saber”), prática que abandonei muito cedo – aos 8 anos, talvez. Acreditava num espírito que sobrevivia á morte (acho que não aguentava pensar que a minha avó, o meu gato e o meu cão tinham morrido definitivamente), acreditava em Maria e Jesus (e sabia que havia equivalentes noutras religiões) no sentido de “amar e perdoar o próximo”, mas não me lembro de dar importância a assuntos como a ressurreição física e a existência ou inexistência de deus até aos 11 anos, quando me apercebi que todos os meus amigos, não só acreditavam nele, como também falavam com ele, ou seja, rezavam. Isto pareceu-me muito estranho, porque eles não tinham maneira de saber se deus os ouvia. E todos os dias eu ia para a escola, voltava para casa, saía de casa, etc, tudo isto sem uma única manifestação divina na minha vida. Foi quando eu pensei porque é que as pessoas acreditavam numa coisa que nunca viam e que nunca fazia nada e pensei que isso era bastante parecido com uma coisa que não existia.

Mais tarde, já com 12 anos e no 7º ano de escolaridade apercebi-me dos conceitos de evidência, fonte histórica e “conhecimento vs fé”(o meu professor de história era arqueólogo) e foi então que cimentei a ideia de que uma coisa que nunca se manifesta, não deixa evidências e que é aceite apenas por fé provavelmente não existe. Aos poucos fui-me apercebendo de que muitos acreditavam no relato do génesis e que era por isso que acreditavam em deus, o que desencadeou a necessidade de procurar uma explicação científica para as origens. E então começou o meu interesse pela origem e evolução da vida, embora o que primeiro me chamou a atenção foi a teoria de Lamarck (e não a de Darwin) e a explicação para a origem da vida, incluindo a experiência de Miller – e felizmente tive um professor de biologia e geologia que me deu uma dicas para a pesquisa. O meu interesse na teoria proposta originalmente por Darwin surgiu quando assisti a um debate sobre o tema na escola.
Cheguei a ter alguns problemas na escola com os professores (e a minha família também) devido ao facto de não ter aulas de religião e moral e com os colegas porque dizia que não era católica e achava estranho que amigos meus e colegas rezassem. Os professores insistiam muito para que eu tivesse aulas de religião e moral e chegaram mesmo a tentar convencer-me de era obrigatório.

Resumindo: acho que posso dizer que nunca acreditei em deus, mas sim que este era uma vaga ideia e que até o Pai Natal foi mais importante para mim enquanto criança do que deus; simplesmente, até determinada idade nunca dei importância ao assunto da existência (ou inexistência) de deus e quando finalmente dei, apercebi-me de que deus não existia. Sem evidências não se pode aceitar uma hipótese como verdadeira e do mesmo modo que não existem evidências de que há duendes invisíveis no quintal, também não existem evidências de que deus exista. É simples.

Por muito tempo pensei que o termo ideal para mim seria agnóstica, mas penso que estava errada. Para ser ateia não é necessário ter certezas, mas sim não acreditar. Sempre fui ateia desde que tinha idade para decidir, apenas nunca do tipo que acredita que deus não existe (em vez de não acreditar que existe). Mas a minha história é basicamente o contrário da de Richard Dawkins, pois este tornou-se ateu devido ao seu interesse pelas explicações sobre as origens, enquanto que eu me tornei mais interessada no assunto por ser ateia, embora sempre tivesse gostado de ciências.


P.S.: Ainda bem que nunca tive religião e moral – uma vez entrei por engano na sala e a professora estava a dizer que a terra era jovem e a dar o exemplo de um mamute preservado para o ilustrar (holy shit…).

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

"Darwinismo" - The best of: Argumentos criacionistas

Um dos argumentos standard dos criacionistas é o típico “cientista X”. Encontrei noutro dia um texto no blog criacionista “Darwinismo” (1) que utilizava o argumento do cientista X, neste caso do cientista Jerry Coyne (e outros, como Richard Dawkins e Kenneth Miller). É verdade. Era um híbrido entre “cientista X” e “citação com distorção de contexto e significado”. Normalmente o cientista X no contexto das citações de teóricos da evolução descontextualizadas serve para lançar dúvidas sobre o consenso científico relativamente á Teoria da Evolução ou então para tentar corroborar alguma parte irrelevante de um argumento criacionista, sendo esta mesma normalmente irrelevante. A alternativa a esta costuma ser indicar que o cientista X acredita em deus ou é criacionista, conforme o tópico abordado. E agora pasmem: desta vez o “Cientista X + Citação” foi utilizado para apoiar directamente a criação sobrenatural. A referência á aparência de design (por vários cientistas foi interpretada pelo criacionista como prova de que os ateus concordam que existe design no mundo natural, como o título (Ateus e criacionistas concordam: existe design no mundo natural) indica, dando apoio á ideia de uma criação inteligente sobrenatural - por outras palavras, de que um velho barbudo criou a bicharada toda em 6 dias. Uau. É claro que o criacionista se esqueceu que há uma diferença entre objectos projectados e “objectos” que apenas aparentam ser projectados, diferença várias vezes clarificada pelos cientistas em questão e razão pela qual Richard Dawkins cunhou o termo “designoid objects” (2) ao explicar esta diferença a crianças num programa educativo (que ironia!). E é também uma das razões que levou Jerry Coyne a escrever “Why Evolution is true” (também mencionado no texto).
Mas os criacionistas são peritos em desonestidade, portanto para eles isto não é um problema.  

 

Referências:
 



2. The Royal Institution Lectures For Children - “Growing Up in The Universe”, Dawkins, Richard (1991) (http://www.youtube.com/watch?v=ebIbuZ6kgsE);


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Informação, especificidade e confusão criacionista (reeditado)


Normalmente tenho-me referido á especificidade no contexto dos argumentos criacionistas como sendo a especificidade que vai influenciar os cálculos probabilísticos, portanto ao nível da informação medida - ex.: pode ser qualquer carta (p=1) ou apenas o ás de copas (baixa a probabilidade). Mas os criacionistas proponentes do D.I. não se referem á especificidade apenas nestes termos. Referem-se á especificidade como significado ou função (das proteínas e do DNA). O problema disto é que continuamos na mesma como a lesma e os criacionistas (Stephen C. Meyer e William Dembski incluídos) continuam a dizer que as moléculas têm significados e funções. Eu já tenho repetido que as moléculas não têm função (estão lá e reagem com outras moléculas) e não têm significado como este texto (mais uma vez, estão lá e reagem). Não há textos, não há letrinhas, não há símbolos. Os criacionistas sempre afirmam que os cientistas sérios fazem espantalhos dos seus argumentos ao discuti-los e que afirmar que se trata apenas de um argumento probabilístico é falso. Mas os termos significado e função não se aplicam desse modo. Podemos utilizar estes termos para comunicar melhor e facilitar a aprendizagem, nada mais. Mas tal como interpretam a Bíblia á letra (ou grande parte dela) também interpretam as nossas metáforas e truques de aprendizagem á letra. Alguns criacionistas menos informados (e menos inteligentes?) chegam mesmo a dizer que uma representação do DNA com as letras A, C, T e G é uma excelente representação e que nenhuma outra é necessária para a compreensão da sua composição e estrutura - basta ver os comentários do Jónatas Machado ("perspectiva") no blog Que treta.

 

Conclusão: O argumento de Dembski é um argumento probabilístico, visto que para ele complexidade é improbabilidade e a especificidade apenas baixa a probabilidade.

 

P.S.: O Jónatas machado continua com a treta do código como prova de que o deus dele criou tudo em 6 ou 7 dias.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Duplicação Genética: a “criação” de novos genes


Foi recentemente descrito um novo modelo / mecanismo pelo qual os genes duplicados podem reter a pressão selectiva para não sucumbir a mutações prejudiciais. Chamam-lhe o modelo de inovação-amplificação divergência (IAD).
Um gene inicialmente tem uma função única (A). Em seguida, algumas alterações genéticas torna também têm uma função nova, b, o que em primeiro lugar não é de importância muito grande. Então alguma alteração ambiental favorece as variantes genéticas com menos função b (o estágio de inovação). Isto é então seguido por uma duplicação do gene, de tal modo que existe mais do que uma cópia que realiza A e b (fase de amplificação). Nesta fase há selecção para mais b, e com algumas alterações genéticas vai aparecer um gene que é melhor numa nova função, B. Neste ponto, a selecção para os genes que fazem ambos, A e B é relaxada, porque o novo gene realiza a nova função. O gene original, perde a função de b, e ficamos com dois genes distintos.

Os insvestigadores, então, estudaram um gene preexistente na Salmonella enterica que tem níveis baixos de duas actividades distintas que lhes permite crescer sem os aminoácido a histidina e triptofano, respectivamente.

Referências:

Näsvall J, Sun L, Roth JR, and Andersson DI (2012). Real-time evolution of new genes by innovation, amplification, and divergence. Science (New York, N.Y.), 338 (6105), 384-7 PMID:
23087246 (http://www.sciencemag.org/content/338/6105/384.abstract)


domingo, 9 de dezembro de 2012

Evolução de estruturas complexas: ATP Sintase (adenda)


A F-ATP Sintase catalisa a formação de ATP usando um gradiente de protões, enquanto que a V-ATPase gera um gradiente de protões utilizando ATP, no entanto, existem semelhanças a nível funcional e de mecanismo.

Relativamente a estudos que demonstram que a ATP Sintase tem um ancestral comum com outros tipos de proteínas, encontrei um bastante satisfatório, intitulado "The evolution of A-, F-, and V-type ATP synthases and ATPases: reversals in function and changes in the H+/ATP coupling ratio", que aborda a origem comum da ATPase e da ATP Sintase a que me referi no texto anterior sobre a evolução desta estrutura, explicando que uma ATP Sintase pode ter tido origem numa  ATPAse ancestral. Na realidade, pelo menos 2 conversões de uma molécula para a outra teriam ocorrido. Este estudo evidencia também o papel da duplicação e fusão de genes no processo evolutivo  desta molécula e descreve passos intermediários.

Referências:

The evolution of A-, F-, and V-type ATP synthases and ATPases: reversals in function and changes in the H+/ATP coupling ratio, Richard L. Cross, Volker Müller (http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0014579304010841)