sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

"Assuntos Internos" da Biologia Evolutiva

Existem controvérsias no que respeita á teoria da evolução. Certamente quem lê isto se pergunta se finalmente estarei a dar razão aos criacionistas no que toca ao facto da aceitação da teoria na comunidade científica.

As discussões continuam no âmbito da biologia evolutiva e isso de facto não é novidade. Os seguintes tópicos são os mais controversos e mais relevantes: neutralismo versus selecionismo na evolução molecular; adaptacionismo; cladismo (relativamente á classificação de seres vivos); selecção de grupo; equilibrio pontuado; extinções em massa; selecção sexual (ex.: selecção sexual ou outro tipo de selecção?) - ou seja, todos estes assuntos são "internos" e nem todas as hipóteses aparentemente contrárias se falseiam para todos os casos, sendo que uma das explicações se adequa melhor do que outra a certos casos e vice-versa.

Um bom exemplo é a discussão que aborda o adaptacionismo e a questão selecionismo vs neutralismo.

A selecção natural é um processo que pode levar à substituição de um gene por um outro de uma maneira previsível. Mas há também um processo evolutivo "aleatório" chamado deriva genética. A deriva genética leva a alteraçõesimprevisíveis nas frequências de genes que não fazem muita diferença para a adaptação de seus portadores, e pode causar evolução, alterando a composição genética das populações. Muitas características do DNA podem ter evoluído por deriva genética. Geneticistas discordam sobre a importância da seleçãovs deriva para explicar as características dos organismos e do seu DNA. Todos os cientistasconcordam que a deriva genética não pode explicar a evolução adaptativa. Mas nem toda a evolução é adaptativa. (Dawkins, R., 2005 (1))

Estes assuntos nada têm a ver com a aceitação da teoria na comunidade científica nem com o criacionismo do design inteligente. Não, eu não dou razão aos criacionistas (é impossível dar).

(1)  http://www.guardian.co.uk/science/2005/sep/01/schools.research

Notícias Evolutivas II


Adaptação de genomas:

Um objectivo importante na biologia evolutiva é entender as origens e destinos de mutações adaptativas. A selecção natural pode agir para aumentar a frequência de mutações novas benéficas, ou daquelas presentes na população (variação genética). Estas mutações benéficas podem finalmente alcançar a fixação numa população, ou podem parar de aumentar em frequência uma vez que um determinado estado fenotípico foi alcançado.

Até à data, apenas algumas experiências sobre evolução para as quais os dados de todo o genoma estão disponíveis foram realizadas. Uma revisão descreve os resultados das populações estudadas em laboratório com e sem recombinação sexual. Em sistemas assexuadas, os resultados até à data sugerem que a fixação, completa destas mutações nem sempre é observada. Em sistemas sexuais, nos exemplos (reconhecidamente poucos) tem-se que a fixação completa também nem sempre é observada.


Comentário: A ciência vai-se desenvolvendo num processo incremental (como a própria evolução biológica). Compreender o equilíbrio dinâmico da genética de populações é algo a que os cientistas se dedicam desde que passaram a ver a evolução como um fenómeno populacional.


Origem da cooperação entre as moléculas da vida:

De acordo com um estudo recente, em virtude das propriedades únicas do fulereno, uma grande molécula de carbono ultra-robusta foi o primeiro progenitor da vida. Seria um modelo biológico estável em que as pequenas moléculas espontaneamente se organizaram e, em seguida, por montagem adicional, formaram um manto de superfície de moléculas de maior dimensão. As moléculas seriam capazes de responder a pressões selectivas. Por exemplo, as linhas com camadas de nucleótidos e de péptidos são concebidos como precursores primordiais do ribossoma. Além disso, a evolução paralela independente e interdependente seria mais rápido do que o desenvolvimento sequencial, não havendo precedência de DNA ou RNA, e explica-se a evolução da integração das duas subunidades com diferentes estruturas e funções em ribossomas e da natureza dos codãos. Este conceito sugere também um veículo potencial para a terapêutica, biotecnologia e da engenharia genética (psst! Criacionistas, quem disse que os estudos sobre evolução eram inúteis?)


Comentário: Algumas descobertas já podiam ser previstas (de uma forma hipotética) pelos cientistas Um bom exemplo disso é a hipótese de Lamarck sobre a herança de características adquiridas e as hipóteses formuladas por Charles Darwin e outros sobre a origem química da vida - «life could have sprung from a "warm little pond" rich in “nutrients”», a qual se assemelha (de grosso modo) ás hipóteses actuais sobre a origem da vida – Qualquer meio (ou mesmo, como Darwin afirmava, “uma pequena poça” - http://news.nationalgeographic.com/news/2012/02/120213-first-life-land-mud-darwin-evolution-animals-science/) rico em compostos químicos capazes de originar vida. É claro que várias hipóteses têm sido propostas e ainda hoje não existe ainda um consenso sobre qual a que melhor se adequa ás observações, quer em termos da localização espacial, quer em termos de quais teriam sido as primeiras moléculas (ou conjuntos de moléculas). Mas é notável que na sua época (marcada pelo fundamentalismo religioso generalizado) Darwin tenha formulado uma hipótese centrada nas interacções entre os materiais existentes na natureza e não em deuses, fadas, duendes ou quaisquer outros seres derivados da imaginação de camponeses da idade do bronze ou da idade média. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Evolução: Homologias e Filogenia

Deve-se primeiro que tudo atentar no facto de ser possível construir árvores filogenéticas com base nas homologias, demonstrando relações entre espécies que estão longe de pertencer ao mesmo "género" - por exemplo, aves e répteis. E as árvores filogenéticas não são "desenhadas" pelos cientistas, são determinadas por testes estatísticos, que um programa por vezes demora dias a realizar (por vezes os computadores nem aguentam).

As homologias são bons indicadores de ancestralidade comum, sobretudo quando falamos de homologia genética ou ortologia. Por exemplo, os genes da hemoglobina de chimpanzés, bonobos e golfinhos são ortólogos pois descendem de um gene ancestral e divergiram porque a população ancestral se dividiu em linhagens diferentes, cada uma acumulando diferentes mutaçõe (já os genes da hemoglobina e da mioglobina são parólogos: a duplicação genética formou diferentes linhagens de descendentes do mesmo gene ancestral que persistiram numa mesma linhagem).

Devem ser consideradas também as homologias entre genomas - por exemplo o genoma do humano e do chimpanzé partilha na região codificante cerca de 98% com o do humano.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Evolução & Ancestralidade Comum: LUCA


Estima-se que o LUCA viveu há cerca de 3,5-3,8 biliões de anos.
Um antepassado comum universal é pelo menos 10^2.860 vezes mais provável do que vários antepassados.

Um modelo com um único ancestral comum, mas permitindo alguma troca genética entre as espécies foi 10^3.489 vezes mais provável do que o melhor modelo com múltiplos ancestral.

Charles Darwin propôs a teoria da origem comum universal, na sua Obra “A Origem das Espécies”, dizendo: "Portanto, eu deveria inferir (…) que, provavelmente, todos os organismos que já viveram na Terra descendem da mesma forma de vida primordial".

No século XIX, Darwin formulou uma hipótese que seria a base de toda a biologia moderna – a Teoria da Evolução, e formulou ainda a hipótese do LUCA que agora impera na biologia evolutiva.  

Existem bastantes evidências a nível de homologia e ortologia que apontavam nesta direcção.

Douglas L. Theobald publicou um estudo na revista Nature intitulado ‘Um teste formal da teoria da ancestralidade comum universal’, avaliando a probabilidade de toda a vida descender de um ou de vários fundos genéticos, tendo em conta a possibilidade de transferência horizontal de genes e sem partir do pressuposto que semelhança nas sequências de aminoácidos implique relação de parentesco genético. O investigador estudou 23 proteínas diferentes de 12 espécies dos três domínios da vida, incluindo o Homo sapiens, a levedura, o bacilo da tuberculose e o Archaeoglobus fulgidus. Os resultados do estudo foram os supracitados. 


Referências:

Douglas Theobald, A formal test of the theory of universal common ancestry, Nature, 465, 219–222 (May 2010).

Darwin, C., The Origin of Species by means of natural selection (1859)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Paranóia Religiosa e a Teoria da Evolução

A religião pode levar ao fundamentalismo, ao fanatismo e talvez a algo mais grave.

A paranóia religiosa a que me refiro é caracterizada por mania da perseguição á religião (cristã) pelos dos cientistas ("evolucionistas"), ao ponto de fazer alegações infundadas sobre homicídios voluntários "para encobrir a verdade", infanticídio – Charles Darwin teria morto a sua própria filha, racismo e conspiração para "expulsar deus das salas de aula" durante o julgamento Kitzmiller vs Dover Area School District.

Eu considero esta atitude/comportamento digno de uma avaliação psiquiátrica e urgente. É um perigo público que pessoas que se autoconvenceram destas deturpações facciosas (e que querem convencer os outros) percorram livremente as ruas com o resto das pessoas. Para um cristão constitui certamente um embaraço que pessoas da própria religião se comportem deste modo, visivelmente patológico.

Mas quem é que acredita numa coisa destas? Não acreditem em mim - vejam o video e confirmem:





* Nota: O nome da patologia que mais se identifica com os sintomas a que me refiro é na realidade designada por: Transtorno delirante paranoide - caso o principal sintoma sejam delírios de perseguição e não parte da personalidade da pessoa (ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Paranoia).

domingo, 2 de dezembro de 2012

Evidências a la William Lane Craig




Pois é… O William Lane Craig farta-se de escrever afirmando que não há bons argumentos a favor do ateísmo e que não se pode invocar a falta de evidências da existência de deus para concluir que ele não existe porque esta só seria importante se, da entidade que se afirma existir, seria de esperar mais evidências do que as de que se dispõe. Segundo o filósofo (?) cabe ao ateu demonstrar que se Deus existisse forneceria mais evidências da sua existência do que aqueles dos quais se dispõe.  


William Lane Craig não apresenta nenhuma evidência da existência de deus. Por razões óbvias o argumento teleológico não é sustentável á luz da ciência moderna (sintonia do universo para a morte, seres vivos com características que apoiam uma origem natural, através de processos evolutivos), o que tem implicações relativamente ao facto de deus ser a causa do universo (argumentos cosmológicos). Quanto aos outros, dependem de pressupostos muito subjectivos e sem qualquer base empírica, como os atributos de deus, a crença na ressurreição e deus como a melhor explicação para uma moral objectiva. Ou seja, talvez não seja de esperar do deus do Craig que não haja mais evidências da sua existência do as que se tem, ou seja, do que zero (0). Isso é basicamente o que se devia esperar de um unicórnio, uma fada, um duende ou qualquer outro deus, ou seja, de coisas que não existem. Se não podemos/ não devemos esperar mais do que isso concluímos que não existe. De outro modo, os argumentos a favor do ateísmo seriam relevantes e chegaríamos á mesma conclusão: descrença por falta de evidências. E sim, de facto de algo que existe espera-se mais evidências do que zero (0).     


 Referências:
«Críticas Teístas ao Ateísmo» de W. Craig in: Um Mundo sem Deus. Ensaios sobre o Ateísmo, dir. Michael Martin, Edições 70.


sábado, 1 de dezembro de 2012

Ateísmo vs Agnosticismo

Já há algum tempo que tenho pensado relativamente ao agnosticismo e ao ateísmo. Por não acreditar em deus por falta de razões para tal e por reconhecer que o conhecimento humano é limitado sempre me auto-defini como agnóstica (embora para mim fosse tão plausível que deus existisse como duendes, fadas e unicórnios), no entanto comecei a duvidar de que este termo fosse aplicável á minha pessoa, pelo menos no estado actual das coisas - talvez ateia fosse mais correcto.

Por gozo fiz um teste na internet sobre este assunto. É claro que não é um teste na internet que me vai dizer se sou ateia ou não. No entanto contribuiu para "desempatar" a situação (devido ás diferenças percentuais acentuadas). A minha previsão do resultado quando terminei foi "Agnóstico". Os resultados é que estiveram um bocado longe dessa previsão:

 
Atheism / Secular Humanism (100%)

 

Naturalistic Pantheism (79%)

 

Agnosticism (66%)

 

Idealist Pantheism (62%)

 

Deism (58%)

 

Dualist Pantheism (54%)

 

Panentheism (50%)

 

Regular Monotheism (50%)

 

Literal Paganism / New Age / Animism (29%)

http://www.selectsmart.com/plus/select.php?url=pantheists

Ok. Descobri que sou ateia.